Como o Google Earth pode ajudar numa cobertura
O Google Eye atualizou as imagens de satélite após o terremoto devastador no Haiti. Com a ajuda do Google Earth, é possível comparar as imagens antes e depois do desastre. O resultado é chocante, pois mostra a extensão do estrago na capital do país. Com apenas um clique, o usuário alterna entre a imagem de como era e o que restou da cidade. Mostra ainda que há bairros muito mais atingidos do que outros.
Para ver, clique aqui para baixar o arquivo. Se já tiver o Google Earth instalado no seu computador, basta dar um duplo clique no arquivo que acaba de baixar que ele vai abrir no programa. Aí, no menu do lado esquerdo você verá um item chamado “Haiti Earthquake”. Se a caixinha ao lado desse nome estiver marcada, você estará vendo as imagens pós-terremoto. Se não, a cena de como era antes do desastre. Use os comandos do programa para dar zoom e aproximar as imagens.
Abaixo, alguns exemplos de antes e depois do terremoto:
1) Área da alfândega de Port-au-Prince
Antes
Depois

2) Área do Palácio Presidencial
Antes
Depois
3) Área da Catedral
Antes
Depois
O beabá da probabilidade e da estatística – 1
Para os jornalistas, o melhor jeito de aprender sobre um assunto é escrever sobre ele. Assim, o que se segue é uma aula do ponto de vista do aluno, não do professor. São anotações de quem pretende fixar conceitos, não ensiná-los. Foram inspiradas, na maioria, pela leitura de “O Andar do Bêbado“, de Leonard Mlodinow. Leia-as como quem espia o caderno do colega de escola.
Os jornalistas precisamos estar cientes de que não estamos propensos a relatar fatos objetivos com imparcialidade. Somos naturalmente parciais, nossa percepção é incompleta, e o fato, quando captado pela nossa mente, torna-se uma interpretação. Mesmo uma cena da qual somos testemunhas oculares é subjetiva. É o resultado de uma série de interpolações feitas pelo nosso cérebro para aprimorar a imagem falha e borrada enviada pelos olhos. Desenvolvemos mecanismos cerebrais que agem como Photoshop sobre uma foto desfocada e mal-enquadrada. Somem-se nossos preconceitos e expectativas, e o resultado é pra lá de subjetivo.
Só estando conscientes desses nossos defeitos de origem é que podemos fazer bem o ofício de reportar. Ser cético e duvidar não é mérito, mas necessidade. Como uma colagem, cada versão se completa na outra, superpostas e contraditórias. Daí que quanto mais versões e observações, melhor. Não me refiro apenas a entrevistas, mas a grandes quantidades de informação. A uma amostra que represente com fidelidade o universo que espelha. Isso implica dominar conceitos lógicos e matemáticos simples, mas essenciais.
Para diminuir a margem de erro do nosso trabalho, convém conhecermos o beabá da estatística e da probabilidade. A diferença entre eles? Nas palavras de Mlodinow: a estatística busca inferir as probabilidades com base em medições dos dados, enquanto a probabilidade faz previsões com base em probabilidades fixas.
Começo aqui uma série sobre esses dois assuntos.
. . .
1) A probabilidade de um evento “X” ocorrer é igual à proporção entre o número de eventos “X” e o número total de eventos, desde que todos eles sejam aleatórios.
Exemplo banal: a probabilidade de dar “cara” em um cara-ou-coroa é de 50%, porque há um evento “cara” entre os dois eventos possíveis: “cara” e “coroa”. Logo, a proporção é de 1 para 2, ou 1/2, ou 50%.
Exemplo nem tão banal: desconsideradas as paixões, a arbitragem e a habilidade, a chance de um time de futebol vencer as duas partidas que faltam para o fim do campeonato é de aproximadamente 11%, porque “vencer e vencer” é apenas uma de nove possibilidades: “vencer e vencer”, “vencer e empatar”, “vencer e perder”, “perder e vencer”, “perder e perder”, “perder e empatar”, “empatar e vencer”, “empatar e empatar” e “empatar e perder”. Logo, a proporção é de 1 para 9, ou 1/9 ou 11,11%.
O exemplo acima é hipotético, e não se aplica na vida real, pois jogos de futebol não são eventos totalmente aleatórios (embora sejam mais casuais do que os comentaristas esportivos fazem parecer). Para ilustrar como a ordem dos fatores influencia o cálculo da probabilidade, tomemos o jogo de gamão.
A chance de somarmos 12 ao lançarmos dois dados simultaneamente é igual à de somarmos 2, certo? Sim, porque só há uma combinação possível para 12 (6 e 6) e outra para 2 (1 e 1). E qual a probabilidade de somarmos 7? É bem maior, porque há seis combinações possíveis dos dados que somariam esse resultado: 1 e 6, 2 e 5, 3 e 4, 4 e 3, 5 e 2, 6 e 1. E quantas combinações diferentes são possíveis em um lance dos dois dados? A resposta é 36. Chega-se a ela elevando-se à potência os resultados possíveis de cada dado. No caso, 6², porque são seis lados de dois dados (se fossem 3 dados, os resultados possíveis seriam 6³ = 216).
Logo, as chances de somarmos 7 no lance de dois dados é de 6 em 36, ou 6/36 = 16,7%. Contra apenas 1 em 36 (2,8%) de somarmos 12 ou 2. Portanto, você terá seis vezes mais chances de ganhar se precisar de um resultado 7 do que um 12 ou um 2.
No caso do campeonato de futebol que está a dois jogos do fim, o total de combinações possíveis de resultados para o time A era 9 porque eram 3 resultados possíveis (vencer, empatar ou perder) em duas rodadas. Se fossem 3 rodadas restantes, as possibilidades se multiplicariam para 27 (3³). Nessa hipótese, se o time A precisasse somar pelo menos seis pontos para não ser rebaixado, quais suas chances de permanecer na 1ª divisão?
Nesse caso, interessariam apenas os cenários com duas (2 x 3 pontos = 6 pontos) ou três (3 x 3 pontos = 9 pontos) vitórias para o time A. Quantas combinações de resultados das três partidas restantes contemplam essas possibilidades? A resposta é sete (“vencer, vencer e vencer”; “vencer, vencer, empatar”, “vencer, vencer, perder”; ”vencer, empatar, vencer”; ”vencer, perder, vencer”; “empatar, vencer, vencer”; “perder, vencer, vencer”). Logo, as chances de não ser rebaixado seriam de 7 em 27, ou cerca de 26%.
Dominar esse conceito é fundamental para se ir adiante na compreensão da probabilidade. Nele se baseiam todas as outras leis probabilísticas. Como veremos nos próximos posts.
10 anos depois, de volta ao impresso (mas com pé na web)

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Comecei hoje a contribuir com o Estadão. Dez anos após deixar a Folha, volto ao jornalismo impresso e diário. Mas mantenho um pé na web, para onde migrei, junto com a torcida do Corinthians, em 2000. A contribuição para o Estadão é temática: escreverei sobre pesquisas e as eleições de 2010, tanto para o jornal de papel quanto para sua versão on-line. O primeiro texto “impresso” é este aqui. Tomando a 99ª pesquisa CNT/Sensus como gancho, analiso o comportamento do eleitorado e as chances dos candidatos.
Durante o período de colaboração para o Estadão, procurarei manter este blog atualizado na medida da minha disponibilidade de tempo. Pretendo não misturar os assuntos. Lá o conteúdo, e aqui, quando for pertinente, o “making of”.
Assim, eis algumas dicas sobre análise de pesquisa eleitoral:
1) Não se perca no mar de números, tente enxergar as grandes tendências. Elas são mais importantes do que as pequenas oscilações.
2) Use sempre a margem de erro, não apenas quando ela lhe convém. É fato: quando somamos a margem de erro de uma pesquisa com a da anterior, raramente há uma oscilação que possa ser considerada estatisticamente significativa. Se a margem for de dois pontos, ela precisa superar quatro pontos para poder se falar em alta ou queda. A margem de erro é proporcional ao tamanho da amostra (mas o tamanho da amostra não é proporcional ao tamanho do universo pesquisado).
3) A terceira dica é para ajudar a cumprir a segunda. Como é difícil haver notícia de uma pesquisa para outra, é mais proveitoso buscar tendências com pelo menos três pontos com a mesma direção na curva. Por exemplo: o candidato A oscila de 10% para 12% e em seguida para 15%, em três pesquisas consecutivas. Apesar de as variações de uma pesquisa para outra terem ocorrido dentro da margem de erro, pode-se falar em uma tendência de crescimento, porque a soma das variações supera a soma da margem de erro (de dois pontos, no caso). Isso só vale se não houver nenhuma variação em sentido oposto entre as pesquisas analisadas.
4) Sempre preste atenção na pesquisa espontânea, principalmente nas fases iniciais da campanha eleitoral. Ela tende a ser mais significativa do que a estimulada quando os percentuais de não sabe/não respondeu/branco/nulo somados superam 50%. É sinal de que o eleitor ainda não está preocupado com o assunto que lhe é proposto pela pesquisa. Nesses casos, as intenções de voto sinalizam mais um recall (memória) do que um propósito firme de sufragar aquele candidato.
5) Compare, tudo e todos: intenção de voto com avaliação do governante, pesquisas diferentes, eleições passadas e presentes, eleitores ricos e pobres, eleitoras e eleitores, jovens e velhos. Procure padrões de comportamento. Eles são mais importantes que as exceções.
6) Sempre leia o questionário original da pesquisa e confira a sequência das perguntas. A ordem das questões altera o produto: após responder a uma questão que obriga-o a emitir um juízo de valor sobre um dos candidatos o eleitor estará propício a manter esse juízo na hora de indicar sua intenção de voto. Se falou mal, dificilmente admitirá a possibilidade de votar nele.
7) Divulgue a metodologia da pesquisa: número de entrevistas, universo a que diz respeito a amostra, margem de erro, universo de confiança, data de campo da pesquisa, quem contratou a pesquisa e tudo o mais que possa influenciar os resultados.
8 ) Não compare diretamente resultados de cenários eleitorais diferentes. Se na pesquisa anterior havia mais candidatos ou eles não eram exatamente os mesmos da pesquisa mais recente, não se pode dizer que um candidato tenha caído ou subido de uma pesquisa para outra. As intenções de voto são sempre relativas, nunca absolutas. Elas dependem de quem está no páreo. Se os cavalos mudam, mudam também os resultados.
9) Lembre-se: enquetes feitas pela internet ou pesquisas feitas pelo telefone no Brasil não representam o total do eleitorado, porque nem todos os eleitores têm acesso a esses meios de comunicação. Além disso, não há controle rígido sobre a amostra de respondentes, e os mais interessados tendem a participar mais, distorcendo o resultado. Amostra boa é uma amostra que represente corretamente o universo pesquisado. Uma amostra estatisticamente controlada com duas mil entrevistas em todo o Brasil vale mais do que uma amostra com 100 mil respostas feita pela internet.
10) Mesmo as pesquisas científicas, baseadas em critérios estatísticos rígidos, estão sujeitas a um certo grau de incerteza e imprecisão. Uma pesquisa com margem de erro máxima de 3 pontos percentuais e intervalo de confiança de 95% indica que em 95 de cada 100 pesquisas feitas, a intenção de voto de um candidato que tem metade do eleitorado ficará entre 47% e 53%. Nas outras cinco, o erro será maior do que esse. Assim sendo, pequenas oscilações só devem ser vistas como sinal de mudança do eleitorado se forem constantes. Tampouco me parece relevante usar casa decimal depois da vírgula para tratar de intenção de voto. No texto do Estadão, arredondei todos os valores divulgados pelo Sensus.
A noite em claro do Twitter

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O apagão de 10 de novembro foi muito semelhante ao de dez anos antes, tanto na extensão do estrago quanto na falta de clareza das explicações de suas causas. Mas a maneira como muitas pessoas se informaram e trocaram informações sobre o problema foi essencialmente diferente. Sem TV nem desktop, uma multidão se voltou ao celular e especialmente ao Twitter para saber o que estava acontecendo. E descobriu, em instantes, que o problema ultrapassava as fronteiras de sua casa, bairro, cidade, estado e país.
O Twitter já tinha dado mostras de ser uma ferramenta útil de informação quando explodiu a loja de fogos de artifício no ABC paulista, ou durante o tiroteio em Fort Hood (EUA). Mas o apagão (ou #apagao, como ficou conhecido) foi o primeiro evento de dimensões nacionais (e com repercussão internacional) a transformar o microblog em ferramenta primordial de informação no Brasil. Tuitei de madrugada “O Twitter foi a lanterna noticiosa do #apagao: mais ágil e até mais preciso do que muitos meios tradicionais”. A seguir explico as razões.
Em primeiro lugar, o Twitter não apagou. Parece pouco, mas, em uma emergência, isso faz toda a diferença. Enquanto a TV era inútil para quem estava no escuro, a rede de dados via celular ficou de pé na maioria dos lugares. Sites e portais noticiosos como G1 e globo.com saíram do ar e tiveram que operar pelo… Twitter. (Será que faltou a redundância de equipamentos que cobravam das redes de transmissão de energia?)
O segundo motivo é que o decantado crowdsourcing funcionou como nos manuais. Imediatamente as pessoas começaram a informar que na sua cidade ou bairro faltava energia, ou que ela havia piscado mas retornara. Com isso, como fez o site do Estadão, foi possível mapear por fontes independentes e corroboráveis a extensão do apagão. A terceira razão é consequência dessa.
Sabendo-se até onde chegava ou não o blackout, era possível deduzir a origem. Como apagou o Sudeste mas não o Sul, era provável que a sequência de eventos tivesse começado em Itaipu ou nos linhões de transmissão que lá se originam. A confirmação veio pelo próprio Twitter, através de um post da jornalista paraguaia Mabel RahnFeldt . Ela informava que a luz fora cortada mas retornara 15 minutos depois no seu país. Como Itaipu é o único ponto em comum entre os sistemas elétricos do Brasil e Paraguai, o apagão tinha que estar relacionado à hidrelétrica.
A quarta razão é que, como provou a própria Itaipu durante o evento, o Twitter se transformou sim em fonte primária de informação. Menos de uma hora depois do início do blackout, a direção da hidrelética criou a conta @usina_itaipiu no Twitter e passou a dar sua versão dos fatos. Em resumo, seus posts explicavam que o problema fora de Furnas, em uma das linhas de transmissão abastecidas por Itaipu, e que, como efeito reverso, pela primeira vez na sua história as 20 turbinas da usina foram todas desligadas, embora logo tenham voltado a funcionar parcialmente. A versão batia com a de outras fontes: se o problema original fosse na usina, a energia não teria logo voltado no Paraguai, ou teria acabado em Foz do Iguaçu (PR).
Em quinto lugar, o Twitter virou ferramenta de trabalho para os jornalistas, ao menos para aqueles que não estavam no escuro e ainda tinham um meio de comunicação comunicando. Fazendo busca pelas hashtags #apagao e #itaipu era possível ter o melhor panorama de onde a energia acabara, onde piscara e onde já tinha voltado e quando. Cidade a cidade, bairro a bairro. Imagens do apagão também eram publicadas em blogs e tuitadas, ajudando jornalistas a ilustrarem suas matérias. Como a que se vê abaixo, do site http://www.fotas.com.br/.

Avenida Sumaré, em São Paulo, durante o apagão de 10 de novembro de 2010
Os exemplos de uso do Twitter por jornalistas durante a cobertura não se esgotam aí. Em São Paulo, a rádio Jovem Pan conseguiu entrevistar o governador José Serra fazendo contato pelo Twitter (ele próprio usou a ferramenta para dizer seu governo estava fazendo). No Rio Grande do Sul, a rádio gaúcha fez uma elogiada cobertura do apagão noite a dentro . A apresentadora Sara Bodowsky relata como o microblog a ajudou:
“Usei meu Twitter pessoal como verdadeira “clipagem” das notícias sobre o apagão. Agências como G1 e Época estavam fora do ar nos seus sites por problemas no servidor e atualizavam as notícias através do Twitter. Ao mesmo tempo, os ouvintes da Rádio Gaúcha (que durante a madrugada chega em São Paulo e Rio de Janeiro) traziam relatos sobre a situação das suas cidades. Uso o Twitter através de um programa de atualização constante. Isso permitiu que às duas da manhã, enquanto entrevistava ao vivo o diretor de Itaipu, Jorge Samek, usasse as notícias que chegavam em tempo real como apoio para a entrevista.”
O Twitter foi a lanterna noticiosa do apagão, mas continua sendo uma ferramenta. Como um garfo, pode ser usado para você se alimentar ou para espetar alguém. Depende de quem o usa e como. Houve é claro quem transmitisse boatos e notícias falsas (“energia só vai voltar em três dias”). Mas foram a exceção e não a regra.
Como ferramenta de comunicação direta, o Twitter tende a acabar com o mero intermediário, o atravessador da informação. Se Itaipu informa diretamente sua versão, para que o público precisa de um jornalista? Para contar todas as versões, para checá-las, para ver se batem com os fatos, para organizar informações dispersas, para contextualizá-la. Em resumo, para investigar. É isso que nos resta.
Perguntar, confirmar e avisar: os limites com a fonte

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O jornalista Maurício Stycer levantou uma interessante questão em seu blog sobre até onde o jornalista deve ir quando o entrevistado fala uma bobagem. Devemos repetir a pergunta? Devemos confirmar o que ouvimos? Ou devemos avisar que ele disse uma besteira e que vamos publicá-la?
Difícil imaginar uma regra que se aplique automaticamente a todas as situações. Stycer elogia no seu blog o repórter Thiago Salata, do “Lance!”, que avisou o presidente do Palmeiras que iria publicar tudo o que ele estava dizendo (Belluzzo acusara um árbitro de “estar na gaveta”). Concordo com o elogio, mas nem sempre o aviso é possível. Recordo uma situação em que o aviso teria sido prejudicial à reportagem:
Eu cobria a Fiesp para a Folha de S.Paulo. O presidente era Mario Amato. Certo fim de tarde, ele conversava com meia-dúzia de jornalistas no restaurante da entidade quando foi interrompido por uma chamada telefônica. Ao voltar à roda, desculpou-se dizendo que precisou atender porque era a ministra do Trabalho, Dorothea Werneck. Como havia repórteres do sexo feminino na rodinha, Amato gracejou: “Ela é muito inteligente, apesar de ser mulher”.
Fiquei quieto. Voltei à redação, escrevi a matéria com a “boutade” do presidente da Fiesp e a editora de Economia Eleonora de Lucena levou a expressão ao título da matéria. Foi uma crise, mas, apesar de os outros jornais não terem publicado a frase, Amato não teve como desmentir. A história chegou ao ponto de Dorothea, anos depois, escrever um livro cujo título era… “Apesar de ser mulher”.
Se, na hora da entrevista, eu tivesse avisado Amato que ele tinha dito uma bobagem, ele teria se desdito automaticamente e os outros repórteres talvez tivessem publicado a história também.
Mas é um episódio a partir do qual não se pode tirar uma regra. Leia as respostas de outros jornalistas à questão feita por Stycer no Twitter. Elas dão uma ideia de quão distintas podem ser as abordagens nesse caso:
@mauriciostycer Amigos jornalistas, o repórter deve avisar ao entrevistado que ele está falando besteira?
@zerotoledo Boa questão. Eu só avisaria que ia publicar a besteira dita se não tivesse gravado e temesse q o entrevistado voltasse atrás
@profwillians Sim, mas se todo jornalista fizer isso, vai ter muita gente que nunca mais vai dar entrevista, pois só falam asneiras.
@MSavarese Creio que há outras maneiras de dizer isso. Algo como: “O senhor não teme a repercussão disso que está dizendo agora?”
@porcopedia Por que vocês, vestais, não falam a mesma coisa quando os jornali$tas é que falam besteira ?
@Cardoso pq você quer banir os ex-BBB de dar entrevista?
@eduloureiro Pela resposta de Belluzzo ao @JucaKfouri , não foi bem uma besteira // @mauriciostycer Eu deveria ter colocado “besteira” entre aspas.
@fchiorino Repórter avisa que está gravando. Aí o resto é por conta e risco do entrevistado
@estadodecirco Belluzzo, pessoa (supostamente) preparada, cinco horas após o ocorrido, precisa de alerta? Não acho.
@eduloureiro Em tempo: protocolarmente, acho que o único aviso necessário é: estamos gravando.
@Jugranjeia Futebol é tão podre quanto a política. Não existem pessoas ingênuas nesses meios. Mas acho q @ThiagoSalata foi profissional.
Comparado a quê? Eis a questão
Em meio a tantas balas perdidas, o secretário de Segurança Pública fluminense, José Mariano Beltrame, fez um achado: “O Rio de Janeiro não é violento. O Rio de Janeiro tem núcleos de violência. Temos índices de criminalidade em determinadas áreas do Rio de Janeiro que são europeus. O Rio de Janeiro não pode receber um programa que seja o mesmo do Oiapoque ao Chuí (vide o blog Caso de Polícia)”.
Procurando bem, sempre é possível achar uma estatística que prove o que você quer. Afinal, como dizia o outro, “bem torturados, os números revelam qualquer coisa”. O secretário deve estar se referindo aos índices de criminalidade de um bairro da Zona Sul (as tais “determinadas áreas”) e comparando-os ao de um continente, o europeu. É covardia.
Não se deve comparar uma média heterogênea e ampla, como a da Europa, com a de um bairro pequeno e homogêneo, como a Urca. No limite, o raciocínio do secretário vai levá-lo a comparar o nível de criminalidade do Barra Shopping com o de Washington DC e concluir que é muito mais arriscado viver na Casa Branca do que na Rocinha.
Em favor do secretário, diga-se que ele não inventou essa chicana estatística. É muito comum os jornalistas usarmos esse recurso para enfatizar uma diferença e ganhar uma manchete. Você já deve ter lido algum título mais ou menos assim: “Bairro paulistano tem qualidade de vida suíça”. Diferenças climáticas e paisagísticas a parte, qualquer comparação de parte com o todo é uma manipulação. Não fosse assim, os rankings de qualidade de vida, criminalidade, IDH, PIB per capita etc seriam todos uma bagunça, misturando países, cidades, continentes, bairros.
É aceitável referir, em um contexto bem explicado, à semelhança entre os índices de violência de um bairro e os de um país, mas apenas como um parâmetro, para ilustrar se esse número é alto ou baixo, não como uma comparação direta.
Tome-se o caso dos homicídios. O que interessa é saber qual o risco que um morador de determinada área corre de morrer assassinado e compará-lo com o de outras áreas semelhantes. Podem ser bairros versus bairros, distritos versus distritos, cidades versus cidades, ou países versus países. Em todos esses casos, trata-se de um cálculo estimado, baseado em uma média e sujeito a erros.
Tanto menor a margem de erro quanto maior for a homogeneidade do universo em estudo. Se você quiser saber qual o seu risco pessoal de tomar um tiro fatal, divida quantos moradores do seu bairro, sexo e faixa etária foram mortos a bala ao longo de um ano pelo número de moradores desse mesmo bairro que sejam do seu sexo e estejam na sua faixa etária. Se você morar no centro paulistano, na República, terá um risco cerca de 20 vezes maior de ser assassinado do que ser morar nos Jardins.
O mesmo vale para o Rio. Morar na Barra é mais seguro do que morar no Complexo do Alemão. Mas, na média, o risco de um carioca morrer assassinado é 2,4 vezes maior do que o de um paulistano (2007, Datasus). E nem sempre foi assim: em 2000, na média, um morador do Rio tinha menos chances de ser assassinado do que um morador de São Paulo. Talvez fosse mais seguro se o secretário se ocupasse em explicar essa estatística.
A apresentação que faltou no MediaOn
Segue a versão pobre em Power Point do meu keynote no 3º MediaOn. Um problema com o projeto impediu que eu conseguisse mostrar os slides durante o debate. Para pagar parte da dívida, segue uma versão sem graça da apresentação que publiquei no Scribd.
O tema é como as redes sociais afetam o trabalho do jornalista.
Prometo gravar uma versão em flash, com áudio, as piadas e as belas transições do Key Note. Depois publico aqui também.
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Twitter, jeito de fazer (parte 1)

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Twittar é preciso. Especialmente para jornalistas. Nem tanto pela necessidade, mas porque é parte do trabalho -e, como todo trabalho, requer um método.
O nome do jogo é retuitar e ser retuitado. Para tanto, interessa menos o seu número de seguidores do que a influência deles. Essa influência é medida pelo número de seguidores de cada seguidor multiplicado pela frequência com que tuitam. O alcance dos seus posts no Twitter será tanto maior quanto mais ativos e seguidos forem os seus seguidores. Mais valem 100 seguidores influentes do que 100 mil seguidores fantasmas.
Só para entender o potencial de multiplicação da comunicação viral: no momento em que escrevi este post (02/10/2009) eu tinha 1.170 seguidores no Twitter, mas, no mesmo dia, meus posts haviam sido retuitados (retransmitidos) 77 vezes (por causa da #Rio2016), alcançando um universo de 32.418 leitores, segundo o site http://www.twitteranalyzer.com/
Não há fórmulas universais para lidar com as redes sociais, especialmente o Twitter. Há fórmulas pessoais, replicáveis apenas na medida da semelhança entre os usuários que as adotam e de seus objetivos. Supondo que os jornalistas têm algo em comum, relato o que aprendi nesta curta experiência e, principalmente, lendo e imitando twitteiros muito mais bem sucedidos.
Funciona:
1) Ter foco. O perfil @zerotoledo tuita sobre jornalismo e revolução digital, quase que exclusivamente. Quem o segue sabe o que esperar dos seus posts. Isso facilita classificá-lo em um nicho, algo cada vez mais importante em um universo de informação super poluído e diversificado. Os internautas, agora seguidores, não são muito diferentes dos antigos leitores, que sempre gostaram de novidades, mas, principalmente, de cultivar seus hábitos de leitura. A gente gosta do que a gente conhece.
2) Ter regras para escolher quem seguir. Parti dos meus amigos e conhecidos, e estendi para os que eles seguiam e de quem eu tinha alguma referência. Depois, procurei quem compartilhava os mesmos interesses do @zerotoledo, principalmente as instituições que tratam de jornalismo. Aí a coisa tomou curso próprio, e um problema apareceu: seguir todos os que me seguem? Pouco prático. Meu critério é seguir quem conheço e/ou quem compartilha interesses, daí fazer sentido seguir os que retuitam minhas mensagens (se o fazem é porque temos algum interesse em comum).
3) Retuitar só depois de checar. No Twitter, como no jornalismo, o que você “vende” é credibilidade. Passar adiante um link quebrado ou, muito pior, uma propaganda disfarçada não ajuda em nada a construir sua imagem de tuiteiro. Cheque, veja onde aquele link vai dar, leia o seu conteúdo, tudo isso antes de retuitá-lo. Parece óbvio, mas muitos não fazem isso.
4) Manter um ritmo. Como o jornal, você precisa criar o hábito de ler o que você escreve entre os que o seguem. E o único jeito de fazer isso é escrevendo, com constância. Melhor escrever alguns posts diariamente (ao menos nos dias úteis) do que uma tonelada apenas em um dia e ficar sem publicar durante vários dias (um pecado, aliás, deste blog).
5) Escolher a hora certa. Timming é fundamental do Twitter. Se você publica suas notas quando não tem ninguém olhando, obviamente, elas não repercutem. É importante publicar na hora certa, quando o maior percentual de seguidores está online. Para saber isso, vá ao site twitteranalyzer, digite o seu codinome no Twitter e, na aba “Friends”, clique em “on-line followers”. Em geral, o meio para o fim da tarde costuma ser uma hora de rush no Twitter.
6) Prestar atenção no que é retuitado. Interesse-se pelo que as pessoas se interessam. Você não precisa seguir todas as tendências, mas certamente vai encontrar, entre elas, alguma que lhe seja interessante. Escreva sobre isso. Para acompanhar tendências, use sites como http://monitter.com/, ou o próprio http://search.twitter.com/. No Brasil, há o http://blablabra.net/.
7) Dividir os twitters em listas. É importante seguir gente bacana, que posta coisas interessantes e em quantidade. Com o tempo, essa lista de amigos pode ficar impraticável de seguir em um lugar só, como a sua página no Twitter. Por isso é importante instalar um dos muitos aplicativos gratuitos que há por aí e que gerenciam sua conta do Twitter, permitindo a separação dos posts em colunas. Dos que testei, o que mais gosteui foi o TweetDeck. Divido os posts de quem sigo em várias colunas como: jornalistas, oficiais, políticos, notícias, esportivos, jornalismo etc.
O dia em que o Twitter ajudou o jornalismo

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As eleições no Irã já haviam mostrado o potencial do Twitter para divulgação de notícias que não saem na imprensa. Nesta quinta, três histórias mostraram como o Twitter pode ser uma ferramenta importante para ajudar o jornalismo -da apuração à divulgação, passando pelo financiamento.
A explosão da loja de fogos de artifício em Santo André teve cobertura ao vivo pelo Twitter feita pelo “Diário do Grande ABC”, @DGABC. De cara, já corrigiu o número exagerado de mortos que alguns portais chegaram a publicar. E seguiu com notícias pontuais, mas relevantes, sobre o resgate. A @CNNChile usou posts de jornalistas brasileiros no Twitter para reforçar sua cobertura. Logo após o acidente, vários twitts indicavam, com links para o Google Maps, o local exato da explosão e os nomes, endereços e telefones de empresas vizinhas (possíveis fontes).
A jornalista paraguaia Mabel Rehnfeldt, @MRehnfeldt, repórter investigativa do jornal ABC Color, entrevistou o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, e, enquanto o fazia, publicava trechos no Twitter. Depois ela veiculou, via microblog, o endereço para fazer o download do áudio da entrevista. Seu trabalho ganhou, assim, repercussão internacional imediata.
Finalmente, teve-se notícia de que um jornal de Austin, no Texas (EUA), o Statesman, conseguiu vender seu primeiro anúncio no Twitter, a ser visto por seus cerca de 14 mil seguidores. Cobrou US$ 150,00. Pode ser uma vela no fim do túnel…
PAUTA: São Paulo perde migrantes e Salvador ganha
A Grande São Paulo perdeu seu poder de atração de imigrantes de outros estados do país. Há menos moradores não-paulistas vivendo na Grande São Paulo hoje do que no início da década. Entre 2001 e o ano passado, a redução foi de 9,4%. Mesmo assim, 3 em cada 10 habitantes dos 39 municípios da Região Metropolitana de São Paulo nasceram em outros estados.
A tendência de regressão da migração é nacional, mas mais forte nas metrópoles. Em todo o país, cerca de 16% dos brasileiros não moram na mesma cidade em que nasceram, um decréscimo de 2,3% em comparação a sete anos antes. Outras regiões metropolitanas experimentaram refluxos ainda mais dramáticos de migrantes, como Belém e Recife.
Ao mesmo tempo, as grandes Salvador, Fortaleza e Porto Alegre assistiram a um crescimento significativo dos migrantes de outros estados 15%, 11% e 8%, respectivamente.
Uma boa história a ser contada é identificar quem está deixando de migrar (ou está voltando para seus estados natais), por quais motivos, se está fazendo isso sozinho ou com a família, se são empregados ou desempregados, se os programas de transferência de renda têm papel nesse fenômeno. É possível responder a essas questões entrevistando especialistas e, principalmente, os dados da PNAD 2008.
O melhor lugar para pesquisar é no SIDRA, do IBGE, principalmente nas tabelas 355, 1840, 1850, 1854 e 2857. Pela tabela dá para saber quantos mineiros moram no Amapá, ou quantos gaúchos vivem no Ceará (e ver quais contingentes estão aumentando e quais estão diminuindo).





