Arquivo para julho 2009
Ferramentas para usar o Twitter no jornalismo
Em sua coluna no portal IJNet (International Journalists Network), Amy Webb indica algumas ferramentas online para ajudar os jornalistas a acompanharem as principais tendências de notícias e temas nas redes sociais. Boa parte delas usa o Twitter como referência. Eis as duas mais interessantes:
- Tweetmeme mostra quais páginas de web receberam mais links em posts no Twitter, seja nos últimos minutos, seja nas últimas 24 horas ou na última semana. Dá para filtrar por notícias, fotos e vídeos, por exemplo. Ou por temas: entretenimento, negócios, política, tecnologia, esportes e por aí vai. Um exemplo: quando esta nota estava sendo escrita, o link sobre política mais popular no Twitter era uma matéria do HuffingtonPost sobre uma pesquisa que aponta que menos da metade dos republicanos acredita que Obama nasceu nos EUA…
- #hashtags permite que você saiba quais são os assuntos mais populares do momento, ou da semana, ou do mês com base no uso de tags (palavras-chave) em posts no Twitter. Você pode ainda pesquisar uma tag específica para ver quantas vezes ela foi usada nos últimos dias. A pesquisa pela tag #ff, por exemplo, teve 19 mil usos nesta sexta, contra apenas 166 no dia anterior (claro, pois FF é Following Friday, a tag usada às sextas-feiras pelas pessoas para dizer quem estão seguindo naquela semana.
BNDES empresta R$ 25 bi à Petrobras, mas Receita nega certidão
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) concedeu financiamento de R$ 25 bilhões à Petrobras, anunciam ambas as estatais. É dinheiro para Madoff nenhum botar defeito. Antes disso, o maior empréstimo na carteira do banco era para a Santo Antonio Energia S/A (R$ 6,1 bi), e o segundo maior, de R$ 2,5 bilhões, fora concedido ao frigorífico Bertin S/A.
Petrobras e Bertin são empresas líderes de seus segmentos no Brasil, mas não só: têm papel destacado no competitivo mercado mundial. A justificativa para os empréstimos bilionários, inclusive, é essa, aumentar suas capacidades de investimento e assim se firmarem como players globais. Afora isso, o que elas têm comum?
Nem Bertin nem Petrobras conseguem obter uma certidão negativa de débitos relativos a tributos federais e à Dívida Ativa da União emitida online pela Secretaria da Receita Federal (SRF) e pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN). Veja abaixo a resposta à consulta feita na madrugada deste dia 31 de julho de 2009 usando-se o CNPJ da Petrobras. (Teste aqui para ver se a Petrobras ainda não consegue obter a certidão quando você estiver lendo esta nota, ou se já regularizou sua situação)

Para obter um financiamento público, imagina-se, esse deva ser um dos documentos requisitados. Há uma explicação, todavia, para essa aparente contradição entre dois organismos federais: a certidão negativa emitida em conjunto pela SRF e pela PGFN tem seis meses de validade. E a Petrobras obteve uma dessas certidões no último dia 25 de abril, embora com várias ressalvas, como se pode ler abaixo. Portanto, apesar de ter problemas com a Receita em 31 de julho, em 25 de abril a Petrobras estava quites com o Leão. Para efeitos burocráticos, essa certidão ainda é válida e foi aceita pelo BNDES para concessão do empréstimo. É do jogo.

A Bertin deve ter passado por situação idêntica ou muito semelhante. Não consegue certidão negativa de débitos referentes a tributos federais hoje, mas conseguiu uma cópia em 20 de maio de 2009, como se vê abaixo. Tudo nos conformes do BNDES.


A propósito, a Santo Antonio Energia conseguia obter a certidão negativa no dia 31/07/2009, quando esta nota foi escrita.
Como achar os CPFs dos ministros de Estado
Para achar os CPFs dos ministros, trabalhe em duas etapas:
1) vá ao Siorg e certifique-se do nome completo do ministro que quer pesquisar. O jeito mais fácil é clicar em “Titular/Cargo”, e, na nova tela, deixar o campo “Titular” em branco e selecionar “Ministro de Estado” no pop-up menu “Cargo”. Clique em “Consulta Orgãos” e você verá uma lista com os nomes completos de todos os ministros.
2) depois vá ao portal da Transparência e, em “gastos diretos do governo”, selecione “diárias pagas”; clique em “consultar”. Vai aparecer uma enorme lista alfabética; não adianta pesquisar o nome completo do ministro, porque o site não encontra; você tem que colocar apenas o primeiro nome (exemplo: Orlando) e depois ir navegando pelas páginas até encontrar o ministro. [No caso do Orlando Silva (Esporte) ele está na pg 21], Clicando no nome do ministro, na página seguinte vai aparecer, na segunda linha da ficha: “Favorecido: 565.244.555-68 ORLANDO SILVA DE JESUS JUNIOR”.
Uma conta que todo jornalista deveria saber fazer
Confesse: você virou jornalista porque sempre preferiu as letras aos números. Matemática sempre foi sua pior matéria na escola, e Redação, a predileta. Qual não foi sua surpresa ao chegar na redação e descobrir que não se faz jornalismo sem números. Que as estatística dominam, de Esportes à Primeira Página. E agora?

Há uma conta simples que, se você souber fazer, deixará de importunar o colega da editoria de economia que tem uma HP12C ou sabe usar Excel. É a conta para calcular quanto alguma coisa cresceu em relação a outra (ou a ela mesmo no passado). Quanto aumentou o preço do pãozinho? Quantos gols Ronaldo marcou a mais no Corinthians do que no Milan? Quanto cresceu a venda de discos do Michael Jackson depois de morto?

o efeito do temp o efeito Para todas essas perguntas, a resposta passa pela mesma fórmula, do crescimento proporcional (ou percentual). Aqui você assiste a um vídeo que explica, passo por passo, como fazer essa conta no Excel. Se preferir, a seguir um jeito de calcular o crescimento na calculadora:
A pergunta (100% fictícia): Ronaldo pesa 99kg hoje, pesava 86kg há cinco anos: quanto cresceu o peso de Ronaldo?
x = (99 / 86) -1
x = 1,15 -1
x = 0,15
0,15 x 100 = 15%
Logo, Ronaldo está 15% mais gordo do que há cinco anos (eu não posso falar nada sobre isso).
Pode repetir essa fórmula para qualquer situação. Lembre-se apenas de dividir o valor atual pelo passado.
Boas contas!
O futuro dos jornais e jornalistas, segundo o editor da Wired
Chris Anderson, editor da Wired Magazine (revista dos EUA especializada em tecnologia), diz que só sobreviverão os jornais e jornalistas que agregam valor à internet. O interesse do público, diz ele, é muito local ou totalmente global. O que estiver no meio do caminho pode não ter futuro. Ou seja, pequenos jornais locais podem sobreviver se fizerem a melhor cobertura de sua comunidade, e o NYT deve sobreviver por causa de sua cobertura sobre o mundo. Mas o San Francisco Chronicle, e sua cobertura da área da baia de São Francisco, pode ver seus dias chegarem ao fim.
A microcobertura, de seis quarteirões em torno da casa de cada um de nós, afirma Anderson, deve acabar nas mãos dos “amadores”, dos blogueiros, e haverá alguma solução tecnológica para agregar esse conteúdo e distribuí-lo.
Anderson também questiona se os jornalistas devem continuar fazendo o que sempre fizeram, como por exemplo ir às centenas para cobrir um mesmo evento (muitas vezes da mesma maneira).
Para quem compreende inglês, eis o link da entrevista dele dada na Los Angeles Public Library este mês, e veiculada pela Fora.TV.
Lance-se na balança comercial
A balança comercial brasileira é uma fonte sub-explorada de pautas. Salvo os veículos especializados, poucos jornalistas saem do óbvio e das oscilações mensais para cima e para baixo, ou pior, para o lado. Mas há um jeito de investigar a fundo as trocas comerciais entre o Brasil e o exterior: o Aliceweb é um banco de dados online do Ministério do Desenvolvimento Econômico e Comércio Exterior.

Após preencher um breve cadastro, você ganha acesso, mediante senha, à interface do BD. Ali você pode, por exemplo, pesquisar o valor mensal da balança comercial desde 1996, com todos os países ou apenas um país/bloco comercial. Mas as maiores possibilidades aparecem ao pesquisar o detalhamento das exportações e importações. Dá para saber, no limite, quantas toneladas de frango o Brasil exportou para o Iraque em março de 2001… E quanto ganhou com isso.
Relações carnais entre bancos de dados
A tendência para os interessados no que os norte-americanos batizaram de database journalism é cruzar intimamente bases de dados públicas e, dessa relação, fazer surgir uma base nova. Os marxistas chamariam isso de síntese dialética digital. Os analistas de sistemas, de bancos de dados relacionais. Um editor de capa do saudoso NP tascaria um “sexo entre bancos de dados”.
Nome à parte, o fato é que não basta mais ao jornalista se acomodar como intermediário da informação. A função de atravessador está com os dias contados, diante da desintermediação entre fonte e público propiciada pelas novas tecnologias. Nenhum jornalista brasileiro chega nem perto do número de seguidores de Mano Menezes no Twitter, por exemplo.
Tampouco bastará limitar-se à publicação de bases de dados públicas, parcialmente ou na íntegra. Há cinco anos, o jornalista Fernando Rodrigues ganhou um merecido Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa por um site chamado “Controle Público”. Ele tornava acessível a qualquer cidadão as declarações de bens dos políticos candidatos, pacientemente coletadas junto aos 27 tribunais regionais eleitorais e depois digitadas. Hoje o site nem existe mais (foi substituído pelo www.politicosdobrasil.com.br), e o próprio TSE se incumbe da tarefa de tornar essas informações públicas.
Resta ao repórter fazer nexos, ligar fatos aparentemente distintos. Uma maneira é cruzar bases de dados com o auxílio de programas de computador. Se as bases são muito grandes (têm muitas linhas e/ou colunas), é necessário um gerenciador de bancos de dados como o FileMaker ou o Access. Através de um campo-chave comum (em geral, um código ou um número, como CPF ou CNPJ), eles são capazes de vincular duas ou mais bases de dados diferentes.
Para bases menores, dá para fazer essa conexão no Excel. Suponha que você queira somar os recursos federais recebidos empreiteira por empreiteira nos últimos cinco anos. O jeito é colocar as tabelas de cada ano, que terão ao menos um campo em comum (o CNPJ), em uma mesma planilha. Depois, classifique a tabela conjunta por esse campo, de modo a agrupar as linhas com o mesmo CNPJ. Isso feito, selecione uma célula da tabela e clique em Dados/Subtotais. Na janela que abrirá, programe para que “a cada mudança na coluna CNPJ”, o Excel use a função “soma” para adicionar um subtotal na coluna “valor”. Aí você pode reclassificar a tabela com os subtotais para fazer o ranking das empreiteiras no período.
Obviamente, essa técnica não se aplica em todas as situações. Mesmo assim, vale a pena experimentar. Ela pode ser útil quando você menos espera. É melhor você já saber do que ficar tateando na hora do fechamento.
Pesquise as empresas que têm financiamento do BNDES
O BNDES é o principal braço do governo federal para financiar empresas. Sua mais recente lista de operações mostra que apenas entre abril de 2008 e março passado o banco fechou contratos de financiamento, diretos e indiretos, num total de R$ 48,3 bilhões para grandes companhias. O site da instituição publica, a cada trimestre, um balanço dos últimos 12 meses de operações de financiamento. Mas os arquivos estão em formato PDF e foram divididos por áreas e tipos de operação. Para facilitar, juntei tudo em um só banco de dados. Para pesquisar, clique em “search” e aplique os filtros que quiser nos campos que vão se abrir. Para reordenar a tabela, clique no cabeçalho da coluna pela qual quer fazer a classificação e escolha “sort”.
O jornalisticamente mais interessante é cruzar essa base de dados com outras, como por exemplo, financiadores de campanha, empresas que têm problemas com a Receita Federal, ou mesmo a lista do trabalho escravo do Ministério do Trabalho (já fiz esse cruzamento e não achei nenhuma correspondência). A base de financiados do BNDES também é uma boa fonte de informação sobre CNPJs das principais empresas do país.
A cerca de 15 meses da sucessão presidencial, é por essa época que começam a se formar alianças fundamentais para o destino da eleição. Uma das mais importantes é entre presidenciáveis e grupos econômicos que vão dar o apoio financeiro necessário para sustentar a campanha eleitoral. Alguns setores tendem a apoiar o candidato governista, não por serem politicamente conservadores ou progressistas, mas pelos interesses que têm em jogo. Chamados de heróis pelo presidente Lula, os usineiros parecem tender mais para Dilma do que para Serra. Reclamam da política ambiental do tucano e temem mudanças de rumo na economia. Ajuda também o fato de o setor ter levantado R$ 5,3 bilhões nos últimos 12 meses junto ao BNDES.
MAKING OF
Para montar o banco de dados com as operações do BNDES, copiei e colei no Excel, coluna por coluna, as tabelas que estavam em PDF no site do banco. Com os dados organizados, criei um aplicativo no Zoho Creator colando os dados da tabela de Excel.
Pesquise e cruze a lista do trabalho escravo do MTb
Uma boa fonte para investigações é a chamada lista do trabalho escravo, do Ministério do Trabalho. A cada seis meses, a lista é atualizada com pessoas e empresas autuadas por manter trabalhadores em condições análogas ao de escravidão. A última versão saiu esta semana. Para facilitar a vida dos jornalistas, transformei a lista de PDF em um banco de dados consultável, no Zoho. Clique aqui para pesquisar na lista atualizada. Na página que abrir, você poderá:
- reordenar os nomes por ordem alfabética, data de entrada no cadastro de autuados, número de empregados libertados pela fiscalização do MTb ou pela UF; basta você clicar no cabeçalho da coluna e, colocando o cursor sobre a palavra “sort”, escolher a ordem ascendente ou descendente.
- filtrar pela data de entrada no cadastro.
- copiar o CPF/CNPJ da coluna “busca#” e usar esse número para cruzar informações em outras bases de dados, como a de inscritos na dívida da união, tentar obter uma certidão negativa da Receita e por aí vai.
Se preferir, pode consultar a lista original, em PDF, aqui.

Castigos impostos aos escravos, aos olhos de Rugendas
A lista contém os CPFs e CNPJs, além dos nomes, de pessoas e empresas autuadas pelo Ministério do Trabalho por empregar gente em condições análogas ao trabalho escravo. Data de atualização: 22 de julho de 2009. Segundo o ministério, “a atualização semestral do cadastro consiste basicamente na inclusão de empregadores cujos autos de infração não estejam mais sujeitos aos recursos na esfera administrativa (decisão definitiva, pela subsistência) e da exclusão daqueles que, ao longo de dois anos, contados de sua inclusão no Cadastro, logram êxito em sanar irregularidades identificadas pela inspeção do trabalho e atenderem aos requisitos previstos na Portaria n°. 540 de 15.10.2004.”
Como converter uma tabela de PDF para Excel
Esta é clássica: você está navegando pela internet e encontra uma tabela enorme, que pode render matéria, mas ela está em formato PDF (Adobe Acrobat), ou seja, um formato fechado, que não permite edição e é difícil de transformar para outros formatos. Mas você precisa converter a tabela de modo a poder analisar seu conteúdo com auxílio de uma planilha eletrônica ou de um banco de dados. Aí vem a pergunta que não quer calar: como transformar uma tabela de PDF para Excel? Há várias respostas possíveis, nenhuma totalmente satisfatória. Praticamente, cada um tem seu jeito de fazer isso. Eis o meu:
Normalmente, as marcações do PDF impedem que que você simplesmente selecione o conteúdo do PDF, copie e cole (ctrl A + ctrl C + ctrl V) no Excel (ou em outra planilha eletrônica). A planilha não reconhece corretamente as tabulações e acaba quebrando as linhas no lugar errado, além de juntar células que deveriam estar separadas. Dá mais trabalho para arrumar do que para digitar o conteúdo.
Uma saída é recorrer a sites que fazem a conversão do formato PDF para outros formatos. O problema é que nem sempre essas conversões saem como a encomenda. Muitas delas ficam no meio do caminho entre o desastre completo e o meia-boca. É preciso testar caso a caso e ver se vale a pena usar a versão convertida. O PDF Online converte o PDF em um arquivo de formato RTF (texto formatado). Daí você tem que abri-lo em um editor de texto, selecionar o conteúdo, copiar e colar no Excel. Às vezes funciona, às vezes não. Já o PDF to Excel promete converter tudo direitinho, mantendo até o “look and feel” das tabelas. Na prática, você vai entender porque o site ainda mantém a palavra Beta ao lado do nome. Pior, eles prometem mandar o resultado da conversão por e-mail. Conto como ficou meu último teste de conversão quando ele chegar…
Resta então o bom e velho trabalho braçal. O jeito menos difícil é apertar a tecla “alt” (no mac, use tecla maçã) ao clicar para selecionar o conteúdo da tabela PDF. Isso vai permitir que você selecione as colunas uma a uma, em vez das linhas. Daí você copia e cola, coluna por coluna, no Excel. Funciona direitinho, mas é demorado. Especialmente porque só dá para selecionar o conteúdo da coluna de uma página de cada vez. Se você estiver convertendo uma tabela com 10 colunas e 10 páginas, vai ter que repetir a operação 100 vezes.
Tem uma dica melhor? Por favor, conte-nos, deixando um comentário.