TOLEDOL, o blog sobre RAC

Reportagem com Auxílio do Computador (RAC) e jornalismo investigativo

Arquivo para julho 16th, 2009

Estatística mortal

O Ministério da Saúde reconheceu a transmissão sustentada da gripe A-H1N1 no território brasileiro e, mais importante, mudou seu protocolo. Como a capacidade de fazer testes de confirmação do vírus é limitada, de agora em diante apenas os casos graves (e óbitos) serão enviados aos três laboratórios capazes de fazer os exames no Brasil. Efeito direto da mudança: vai haver subnotificação de casos brandos da gripe, como o próprio ministro admitiu. Resultado: menos casos sabidos + mortes em alta = maior taxa de letalidade aparente. É um (d)efeito matemático que não necessariamente traduz um aumento do risco de morte pela doença.

É preciso tomar cuidado com essas contas simples daqui pra frente para não passar a impressão equivocada de que a gripe A-H1N1 mata mais do que realmente mata. Isso já ocorreu na Argentina e pode se repetir no Brasil. Os poucos estudos feitos nesses menos de três meses de pandemia indicam uma letalidade global de 0,5%, que é semelhante à da gripe comum.

Escrito por Jose Roberto de Toledo

16/07/2009 em 20:06

Publicado em Jornalismo Investigativo

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Números bem cozidos

A Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo divulgou ontem que a taxa de mortalidade infantil paulista caiu à metade em 13 anos. A notícia chegou às primeiras páginas. Mas os 13 anos me chamaram mais a atenção do que a queda abrupta. Se é para ser aleatório, por que 13? Por que não 3? Bem, porque se fôssemos comparar os últimos três anos a notícia seria outra: há estabilidade na mortalidade infantil no Estado de São Paulo desde 2005. A taxa chegou a 13,0 mortos por mil nascidos vivos naquele ano, variou positivamente para 13,2/mil no ano seguinte, voltou a 13,0/mil em 2007 e baixou um pouquinho, para 12,5/mil no ano passado. Ou seja, não há três pontos consecutivos na mesma direção na curva recente da mortalidade infantil paulista, o que nos impede de falar em tendência.

O maior mérito foi de quem conseguiu derrubar a taxa de 24,5/mil em 1995 para 13,0/mil em 2005. Ih! Mas isso foi em outro governo! Sorry.

E por que a tendência de queda não se manteve de 2005 para cá? Porque é mais fácil derrubar a mortalidade infantil das crianças de 30 dias até 1 ano de vida. Muitas dessas mortes são evitadas com medidas baratas, como a difusão do soro caseiro como remédio contra desidratação, ou por efeito da expansão da rede de água e esgoto. Foram essas mortes que caíram até agora, dramaticamente. O problema é reduzir a mortalidade das crianças com menos de um mês de vida e, principalmente, a mortalidade das com menos de uma semana. Aí são necessárias várias políticas públicas combinadas, investimentos na saúde materna, equipamento e treinamento das unidades de obstetrícia, controle das infecções hospitalares. É caro e complicado.

À medida que a eleição presidencial de 2010 se aproxima, os jornalistas precisamos estar ainda mais atentos às divulgações de estatísticas governamentais, sejam federais, estaduais ou municipais. Sem um olhar crítico sobre os números, a chance de comermos um prato requentado é grande.

Escrito por Jose Roberto de Toledo

16/07/2009 em 18:12

Publicado em Jornalismo Investigativo

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Colecionando CPFs e CNPJs

Se ainda não tem, trate de começar: uma boa coleção de CPFs e CNPJs serve de base para muitas investigações de interesse jornalístico. Com esses códigos você é capaz de descobrir se uma pessoa declarou Imposto de Renda, o endereço de uma empresa e se ambas conseguem obter uma certidão negativa de débitos no site da Secretaria da Receita Federal, por exemplo.

Onde encontrar CNPJs e CPFs legalmente?

Tem dicas de onde encontrar CPFs e CNPJs? Escreva um comentário para esta nota. Já há alguns, vale ler.

Boas sugestões do Daniel Haidar:

Minha sugestão é jogar o nome da empresa ou da pessoa em sites da Justiça, porque alguns deles indicam o número do CPF na própria qualificação das partes ou na transcrição da sentença.

Este site aqui faz uma busca em vários tribunais brasileiros e internacionais e pode servir para descobrir onde estão os processos http://br.vlex.com/

Dois sites que frequentemente divulgam CPF/CNPJ são o da Justiça Estadual e o da Justiça Federal
http://www.jfsp.gov.br/
http://www.tj.sp.gov.br/

Escrito por Jose Roberto de Toledo

16/07/2009 em 3:41

Os donos e seus pedaços

Eis o ranking das 10 empreiteiras que mais receberam dinheiro do governo federal em 2008 para a construção e manutenção de rodovias e ferrovias. O curioso é que, juntas, elas ficaram com 51% dos R$ 2,7 bilhões destinados a estradas no ano passado. O resto foi repartido entre 201 empreiteiras. Na média, as top ten receberam uma bolada 20 vezes maior do que suas concorrentes menos favorecidas. Nem a renda dos brasileiros é tão concentrada quanto as verbas federais para rodovias e ferrovias.

Em 2009 a situação não é muito diferente, com as 10 mais abocanhando 45% da verba total, até agora. E a maioria das mais bem colocadas no ano passado continua entre as top ten.

Se você clicar no nome das construturas na tabela abaixo, verá quais obras cada uma delas fez e quanto recebeu por obra. A Delta, por exemplo, recebeu grande parte dos seus R$ 370 milhões por restauração e recuperação de rodovias em Estados do Nordeste.

CNPJ

Razão Social [Nome Fantasia]

Total no Ano (R$)

10.788.628/0001-57

DELTA CONSTRUCOES SA

370.078.449,33

33.059.908/0001-20

C R ALMEIDA S/A – ENGENHARIA DE OBRAS

229.760.740,23

20.520.862/0001-52

ARG LTDA [ARG LTDA EST UNIF]

221.227.084,63

25.707.134/0001-78

SPA ENGENHARIA INDUSTRIA E COMERCIO LTDA

173.088.024,53

77.955.532/0001-07

CONSTRUTORA TRIUNFO S/A [TRIUNFO S/A]

77.354.637,24

53.503.652/0001-05

CONSTRUTORA SANCHES TRIPOLONI LTDA

75.875.983,37

17.186.461/0001-01

EGESA ENGENHARIA S/A [EGESA]

67.831.918,31

76.592.542/0001-62

IVAI ENGENHARIA DE OBRAS SOCIEDADE ANONIMA

66.530.674,81

17.185.786/0001-61

CONSTRUTORA BARBOSA MELLO SA

53.841.340,88

17.162.983/0001-65

CONSTRUTORA ATERPA S/A

53.620.157,80

MAKING OF

Onde achar esses dados? No portal da Transparência, da CGU.

Selecione “Gastos Diretos do Governo” por “Favorecido” e “Pessoa Jurídica por Atividade Econômica”. Selecione o ano (no caso, 2008) e clique em consultar. Na tela seguinte, clique em “Construção”, e, na próxima, em “Construção de ferrovias e rodovias”. Quando aparecerem os resultados, clique no título da coluna “Total do ano” para classificar as empreiteiras pelos valores recebidos.

Escrito por Jose Roberto de Toledo

16/07/2009 em 2:08

Cadê a lista dos devedores da Previdência?

Vai fazer aniversário desde que o Ministério da Previdência colocou a lista dos devedores do INSS “em manutenção” (sic). Confira aqui.

Tela do site da Previdência

Tela do site da Previdência

A lista é uma informação pública e de interesse social. Todos temos o direito de saber quem deve e o quanto deve para a Previdência. Uma alternativa insatisfatória está no site da Procuradoria Geral da Fazenda Nacional. Mas lá na PGFN só dá para fazer busca por nomes (ou CPFs e CNPJs) de quem está inscrito na Dívida Ativa da União e não informa o valor. Não dá, portanto, para verificar quais são os maiores devedores e quanto eles devem.

Ou seja, o mecanismo que sobrou é quase inútil. E injusto, pois os poucos que devem centenas de milhões de reais ficam na mesma condição dos muitos que devem centenas de reais.

Enquanto isso, o projeto do próprio governo federal que regulamenta o acesso às informações públicas dorme na Câmara dos Deputados.

Escrito por Jose Roberto de Toledo

16/07/2009 em 1:15

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