TOLEDOL, o blog sobre RAC

Reportagem com Auxílio do Computador (RAC) e jornalismo investigativo

Arquivo para agosto 2009

O fracasso que foi um sucesso

O exemplo é cabotino, mas relevante. O post “O poder supremo do Twitter. Será?”, deste blog, foi um micro fenômeno de propagação viral. Desidratado a uma chamada no Twitter, recebeu pelo menos 207 RTs, ou seja, foi retransmitido 207 vezes por pessoas diferentes em menos de 12 horas. Isso fez com que a história alcançasse um público estimado em cerca de 40 mil leitores pelo Twitter Analyzer, cerca de 70 vezes mais gente do que a audiência cativa deste blogueiro no Twitter à época da publicação do post. O curioso é que este sucesso foi baseado em um fracasso.

Como se pode ler no post original, a história tão propagada relatava um caso curioso envolvendo uma jornalista da Folha de S.Paulo, Vera Magalhães, durante a cobertura pelo Twitter do julgamento do ex-ministro Antonio Palocci no STF. Porém a história toda era baseada em um trote do personagem “mala ao lado”. Ao relatar a história, não chequei se o mala que dizia ser o mala era de fato o mala. E dancei: não era, como ele confessou depois, pelo próprio Twitter.

Felizmente, a nota corrigida foi mais lida do que a original, como mostra o gráfico de visitas a este blog, aí abaixo. Os dois pontos absurdamente fora da curva mostram o número de pessoas que leram o post na quinta à noite e ao longo da sexta. A correção foi feita às 22h50 de quinta. Logo, das cerca de 5 mil pessoas que leram a história aqui, pelo menos 3 mil leram a versão final, que relatava o erro. Foi o terceiro post em português mais lido no WordPress na sexta-feira. Não é preciso dizer que os níveis de audiência voltaram ao normal desde então.

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O principal interesse aqui é outro: entender como um post no Twitter se propaga até se tornar uma epidemia, mesmo que modesta. Neste caso, os principais propagadores iniciais foram fabio_seixas, abranchesflaviogomes69. Embora outros twitteiros tenham sido até mais rápidos em dar RT (de “Reference To”, ou seja, passar adiante a mensagem dando crédito ao autor) ao post original, as mensagens do trio foram as mais repassadas, especialmente as de flaviogomes69, com seus 5,6 mil seguidores. Em menos de 20 minutos, o post chegou a quatro graus de retransmissão, como neste caso: “marcelmerguizoRT @Chaplin_Charles Modern Times, my dear RT@flaviogomes69 Espetacular! RT @zerotoledo: O poder supremo do Twitter”.

Meia-hora depois, o post ganhou um segundo impulso com uma recomendação de mauriciostycer: “Ótima história e uma dica legal RT @zerotoledo O poder supremo do Twitter: a repórter @veramagalhaes no STF”. Foram mais dezenas de tuiteiros, entre os cerca de 5 mil seguidores do jornalista, que passaram a mensagem pra frente.

Aí veio a correção, no post “Não checou, dançou”, e uma nova onda, ainda mais rápida, varreu o Twitter: quem já tinha dado RT para o post original se preocupou em divulgar a nova versão, que, de certo modo, tornava a história ainda mais curiosa. Foram os casos de abranches, flaviogomes69 e mauriciostycer. Na sequência, twitteiros com centenas e até milhares de seguidores, como inagaki e alonfeuerwerker, entraram no movimento e a história ganhou vida própria: uma busca por “poder supremo do Twitter” ou “não checou, dançou” mostra que muitas mensagens foram enviadas sem RT @zerotoledo, embora a maioria ainda conservasse o link para o post neste blog.

Dessa pequena mostra, percebe-se que, além da necessária curiosidade que uma notícia tem que despertar, uma propagação viral pelo Twitter depende de uma influente rede inicial de seguidores, não necessariamente grande, mas composta por twitteiros com ampla e fiel audiência. Logo, não adianta nada conservar uma base de seguidores “fakes”, é preciso que quem o segue seja seguido. A soma da audiência de dezenas de twitteiros com poucas centenas de seguidores pode render um efeito epidêmico quase tão grande quanto um post de um campeão de audiência.

Neste caso, ajudou muito também o fato de a história ter tido uma suíte quase instantânea, que estimulou as pessoas a permanecerem atentas ao assunto e se preocupando em propagar os capítulos seguintes.

Faltou, todavia, uma ferramenta mais eficiente de análise gráfica do trajeto de um post. Se alguém conhecer, me avise.

Escrito por Jose Roberto de Toledo

31/08/2009 em 23:47

Publicado em Jornalismo Investigativo

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Dicas de twitteiros sobre como inserir vídeos no WordPress

Planejando inserir conteúdo multimídia aqui, pedi dicas no Twitter sobre como fazê-lo. Eis as respostas que chegaram nos primeiros 15 minutos:

De @DriSallesGomes: Põe Pelo menos no blog wordpress q faço funciona. C/ outros videos, complica o embed, +difícil explicar. ;)

De @charlesnisz: Vai no painel e procura o icone de add media. Lá você configura o link e a largura do vídeo a ser embedded.

De @tatyperry: Se não me engano é só colocar o link de incorporar (youtube). Quando faz o upload do post do blog o vídeo carrega ali.

De @pomeu: Copia o código que apararece no Youtube no campo Embed e cola na aba HTML de edição do seu blog wordpress.

De @flavia_barros: Segundo meu marido, vc copia e cola o código gerado pelo youtube e cola no local de escrever mesmo o teu post.

De @carlasehn: Eu uso o vodpod, que serve como widget do wordpress e cria inclusive canal personalizado.

Por pura preguiça, testei primeiro as dicas do @pomeu, da @tatyperry e da @flavia_barros, que diziam a mesma coisa e me pareceram a mais fácil de fazer. Funcionou. Veja abaixo o convite para um curso de RAC do Knght Center. A dica do VodPod também é bacana: você entre aqui e arrasta o botão do VodPod para o seu navegador (Firefox ou Safari). Daí, quando achar um vídeo na internet e quiser publicá-lo no seu blog no WordPress, basta clicar no botão.

Escrito por Jose Roberto de Toledo

29/08/2009 em 20:24

Inscreva-se para novo curso online de RAC

O Knight Center for Journalism in the Americas abriu inscrições para mais um curso online de introdução à Reportagem com Auxílio do Computador (RAC). São quatro semanas de ensino à distância, cobrindo quatro grandes tópicos: busca avançada na internet, uso de bases de dados online e offline, planilha eletrônica (Excel) aplicada ao jornalismo e um roteiro para criar o seu próprio banco de dados usando softwares gratuitos. Duas coisas importantes: o curso é grátis e é em português (não tem outro no idioma lusitano).

O curso de RAC à distância tem três grandes vantagens sobre cursos presenciais curtos: 1) você pode fazer o curso na hora que bem entender, inclusive de madrugada (as aulas são em vídeo, powerpoint e texto), 2) você pode praticar o que aprendeu imediatamente fazendo exercícios com correção automática, 3) através dos fóruns online, você tira dúvidas com os instrutores e faz contatos com jornalistas de todo o Brasil (as resposta às perguntas costumam vir em minutos, no máximo em horas).

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O Knight Center está encerrando um curso de RAC por estes dias. Participaram intensamente jornalistas profissionais dos Pampas à Amazônia, além de brasileiros radicados nos EUA, Alemanha e Bolívia. Um dos subprodutos do curso foi este banco de dados, elaborado por uma das participantes, com links explicativos sobre dezenas de sites úteis para apurar informações para reportagens.

O Knight Center está baseado na Universidade do Texas, em Austin. É comandado por um veterano jornalista brasileiro, Rosental Calmon Alves (no Twitter, @rosental). O instrutor do curso serei eu, com auxílio da jornalista Vanessa Higgins.

Para se inscrever, preencha este formulário online e torça para ser selecionado para uma das 70 vagas. Para saber mais sobre o Knight Center e sobre o curso, visite a página deles na internet.

Escrito por Jose Roberto de Toledo

29/08/2009 em 7:16

O poder supremo do Twitter. Será?

ESTE POST FOI ATUALIZADO E CORRIGIDO (a versão original, para quem quiser conferir, está depois da “quebra” da página)

A repórter Vera Magalhães (@veramagalhaes), da Folha de S.Paulo, fazia a cobertura ao vivo, pelo Twitter, do julgamento do ex-ministro Antonio Palocci no Supremo Tribunal Federal. Notebook nas mãos e muitas notícias na cabeça, disparava posts em tempo real sobre as observações dos ministros e a linha de defesa dos advogados, alinhavando o juridiquês das fontes com a descrição das cenas que via no plenário.

A cobertura ia muito bem, mais de 100 notas publicadas, referendadas e retuitadas ao ponto de o alcance dos posts ser 15 vezes maior do que o número de seguidores da jornalista. É que seus seguidores retransmitiam os posts que mais gostavam para seus próprios seguidores, e assim indefinidamente, multiplicando o raio de influência da autora original -numa proporção muito além do que Vera poderia imaginar. Em breve ela teria uma noção mais acurada do alcance real de suas notas.

A certo ponto da cobertura, a jornalista postou: “Acaba de sentar um mala do meu lado. Agora tenho de digitar com o laptop no colo”. E tocou o barco da cobertura. Três horas e vinte e dois minutos depois, Vera interrompeu a sequência de notas sobre o julgamento para publicar, com charme, uma nota que poderia ser chamada de meta-cobertura: “Saia-justa na cobertura online. Desculpa aí @LCSchama RT @LCSchama@veramagalhaes Desculpe te atrapalhar. Ass.: o mala ao lado.”

Tradução: o advogado Caio Leonardo Bessa Rodrigues, supostamente sentado ao lado de Vera, havia tomado conhecimento da nota sobre si e respondera, elegantemente, pelo mesmo canal, o Twitter: “@veramagalhaes Desculpe te atrapalhar. Ass.: o mala ao lado.”

Tudo muito bonito, não fosse um trote. Na verdade, @LCSchama não estava no STF. Apenas passou-se pelo “mala ao lado”. Vera explica porque acreditou que @LCSchama era ele: “Eu só vi o pedido de desculpas pelo http://www.search.twitter.com horas depois. O mala real já tinha ido. Tudo combinava!!!”

A confusão jurídico-cibernética não terminou aí. Este que vos escreve publicou um post neste blog contando o episódio. Replicada pelo próprio Twitter, a nota virou epidemia: em menos de duas horas houve dezenas e dezenas de retuitadas e o número de acessos a este post foi multiplicado por 10. Todos acreditamos que tínhamos vivenciado uma história edificante sobre o poder viral do Twitter blablablá.

Até que, horas depois, veio a revelação da farsa, em uma mensagem do @LCSchama dirigida a @veramagalhaes: “Não estive no STF, só segui seus tweets (…). Incorporar o mala foi irresistível, mas irreal”.

“Gente, me sinto personagem de uma trama hitchcockiana. Alguém tem de avisar o @zerotoledo para fazer o epílogo com a confissão do @LCSchama”, escreveu Vera no Twitter às 22h39. Eis aqui o epílogo: não checou, dançou. Foi o meu caso.

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Escrito por Jose Roberto de Toledo

27/08/2009 em 19:36

Comparado a que? Eis a questão

A matemática é uma ciência exata, mas interpretar números é o reino do relativo. Um mesmo valor pode ser grande ou pequeno dependendo da comparação. Saber comparar, portanto, é o grande desafio para jornalistas quando escrevem (ou falam) sobre qualquer assunto que envolva estatísticas.

“O patrimônio do deputado Sinfrônio dobrou de valor em quatro anos de mandato”. É muito ou pouco? Depende. E, pior, depende de vários fatores: do patamar de onde o deputado partiu, se o ritmo de crescimento dos seus bens desacelerou ou se intensificou nos últimos tempos, e de como ele se saiu em relação a seus pares. Se, na média, o patrimônio dos outros parlamentares quadruplicou, então Sinfrônio deve estar na oposição.

Mas se Sinfrônio tinha um Fusca 68 e morava de aluguel antes da eleição, e agora detém um quarto-e-sala e anda de Honda Civic 99, é provável que seu patrimônio tenha dado um salto em termos proporcionais (deduplicado, dependendo da quilometragem do fusquinha). Em valores absolutos, entretanto, ele é tão emergente quanto um eleitor da classe C.

Já o senador Argentário viu seu patrimônio crescer “apenas” 40% ao longo de oito anos de mandato, de R$ 100 milhões para R$ 140 milhões. Classificando-se pela coluna do crescimento relativo do patrimônio, ele se equivaleria ao baixo clero do Congresso. Já pela coluna do crescimento absoluto, Argentário frequentaria o sínodo dos cardeais bigodudos.

Mais complicada de se analisar é a situação do deputado Retilíneo. Seu patrimônio (que não é uma fortuna mas é maior do que o seu, o meu e o nosso) cresceu na mesma média dos seus colegas de partido ao longo dos últimos quatro anos: 200%. Porém, antes de virar-casaca e se transferir da oposição para uma sigla da base aliada, no mandato anterior Retilíneo tinha empobrecido alguns milhares de reais. A notícia, portanto, é a mudança de vetor, de desaceleração para o espetáculo do crescimento.

Os exemplos acima, por mais estúpidos que pareçam (deputado empobrecendo?!), mostram que não há uma regra única para se comparar e, portanto, para se analisar os números. Tudo depende de com que se compara.

Felizmente, alguém já pensou nisso antes e inventou um negócio chamado estatística descritiva. São algumas fórmulas básicas que o jornalista pode usar quando tem que mastigar uma tabela cheia de cifras:

  1. calcule a média (soma dos valores dividida pelo número de fatores)
  2. calcule a mediana (ponto médio de um intervalo de dados, ex: num conjunto que vai de 1 a 5, é 3; se fosse de 1 a 6, seria 3,5)
  3. compare média e mediana (quanto mais distantes uma da outra, mais desigual é a amostra: se a média for muito maior, é porque tem alguém puxando ela para cima e vice-versa)
  4. identifique o valor máximo
  5. identifique o valor mínimo
  6. subtraia o mínimo do máximo para calcular a amplitude da mostra
  7. calcule a variação bruta dos valores no tempo, subtraindo o mais velho do mais novo
  8. calcule a variação proporcional, dividindo a variação bruta pelo valor mais novo
  9. procure padrões de comportamento nos números
  10. identifique os pontos fora da curva, aquilo que foge ao padrão, ou seja, a notícia

Cálculos feitos, o jornalista terá parâmetros para comparar um valor específico com os demais e saber se aquilo é muito ou é pouco. Claro que tudo isso fica muito mais fácil usando uma planilha de cálculo como Excel ou Google Spreadsheet.

Escrito por Jose Roberto de Toledo

27/08/2009 em 2:33

Concretismo barato

Se os dados são os tijolos, e a informação, a parede, o conhecimento é a casa. E a inteligência? É o cimento que dá a liga.

Para sobreviver, o jornalismo terá que deixar de ser pedreiro para se tornar incorporador imobiliário. Ninguém tem a fórmula, mas se tivesse que fazer uma aposta -e temos-, ficaria de olho nas experiências do New York Times. Cada vez menos um jornal e cada vez mais um “clube” destinado a produzir e distribuir conhecimento. Não apenas entre leitores ou assinantes, mas entre associados, que podem fazer tours pela redação, discutir seu vinho predileto com o crítico de gastronomia e fazer um curso ministrado por um ganhador do prêmio Pulitzer.

Não será só esse tipo de receita que vai tirar o NYT do buraco financeiro em que está enfiado, mas o uso da credibilidade da marca como canal de acesso a conhecimento e ilustração é um degrau a mais na tentativa de voltar ao equilíbrio financeiro. Após a pulverização das verbas publicitárias pela internet, não há mais uma fonte de recursos que, sozinha, possa dar conta dos gastos de um grande jornal. É preciso montar uma cesta ampla de receitas, que passa pela venda de conteúdo online, acesso aos bastidores do jornal, organização de cursos e seminários, análise e venda de relatórios sobre comportamento dos leitores e por aí vai.

O sucesso de festivais como a Flip (Feira Literária de Parati) e de escolas de cursos rápidos como a Casa do Saber é indicativo de que há um público de renda alta e disposição de aprender. Tudo indica, é o mesmo público que ainda assina jornais e compra revistas. Aproveitar o acesso a essas pessoas para oferecer mais oportunidades de conhecimento pode ser uma maneira de financiar o jornalismo.

A diversificação do conteúdo é, talvez, a saída comercial. A outra, é a institucional ou benemérita: são os fundos como Open Society Institute, ou doadores privados como Herbert Sandler, que sustentam cada vez mais centros de investigação jornalística independentes, como o ProPublica, nos EUA, ou o CIPER, no Chile. Por esse caminho, jornais como o New York Times poderiam vir a se tornar entidades sem fins de lucro, amparadas por doadores institucionais e fãs endinheirados.

Se o novo modelo de negócios experimental está longe de ser consolidado, o modelo de doações e financiamento voluntário enfrenta dois problemas: a limitação financeira e o fato de que tudo o que é voluntário pode deixar de ser de um dia para o outro.

A única certeza é que o binômio anúncios + assinaturas não sustenta mais ninguém. Os que se agarrarem a esse modelo superado vão sair do jornalismo para entrar na história.

Escrito por Jose Roberto de Toledo

26/08/2009 em 4:00

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Links, websites para IPyS Colpin

Websites citados por Lise Olsen (IRE, USA), Giannina Segnini (La Nación, Costa Rica) e José Roberto de Toledo (Abraji, Brasil) en “Qué Hay de Nuevo en la Investigación por Computadora” – IPyS Colpin (Conferencia Latinoamericana de Periodismo de Investigación) – Lima, 18/08/2009:

Sitios útiles y trucos para aprovechar de las técnicas de

Periodismo Asistido por Computadora (PAC)

Lise Olsen, reportera de investigación

The Houston Chronicle

Miembro de la junta directiva de Investigative Reporters and Editors,

(713) 362-7462

lise.olsen@chron.com

Giannina Segnini, Jefa de Redacción

La Nación de Costa Rica

(506) 2247-4265

gsegnini@nacion.com

José Roberto Toledo

ABRAJI y director de Prima Pagina, Brasil

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Escrito por Jose Roberto de Toledo

18/08/2009 em 10:25

Dica de taxista iniciou saga jornalística que enterrou político

A repórter Daniela Arbex se dirigia a mais uma pauta para o seu jornal, o diário Tribuna de Minas (cerca de 8 mil exemplares), a bordo de um táxi. Discutia política com o motorista, sem maior intenção do que matar o tempo, quando o taxista lhe disse que o mais poderoso vereador da cidade era dono de uma empreiteira, a Koji. Bem-informada, ela se espantou porque nunca ouvira falar daquela empresa, muito menos que Vicentão, o vereador Vicente de Paula Oliveira, fosse empreiteiro. Mesmo duvidando, pôs-se a investigar.

Ao fim de três meses, Daniela e seus colegas descobririam não só que o taxista estava certo, mas que a Koji ganhara e não entregara obras para a maioria das secretarias municipais de Juiz de Fora. A publicação de 35 reportagens bem sustentadas levaram primeiro ao afastamento de Vicentão da presidência da Câmara Municipal, depois à renúncia ao cargo de vereador (para escapar da cassação) e, finalmente, à não-reeleição, que pôs fim a 20 anos de uma bem-sucedida carreira política-empresarial.

IMG_0510A equipe vencedora: Táscia Souza, Daniela Arbex e Ricardo Miranda

A apuração cumpriu  todas as etapas de uma exemplar investigação jornalística. Em todas as fases, os jornalistas estiveram à frente e não atrás da polícia, do Ministério Público e da comissão de inquérito da própria Câmara. Os jornalistas descobriram que a Koji estava em nome de laranjas ligados ao vereador, que a empreiteira recebera milhões do poder público municipal, que vencera concorrências em circunstâncias suspeitas, que o patrimônio do vereador fora multiplicado por quatro em apenas quatro anos, entre outras irregularidades. Tudo foi baseado em documentação.

O resultado foi um movimento popular que foi às ruas gritar “Fora Vicentão”. Passeatas, adesivos e a presença maciça da população nas votações sobre o caso na Câmara Municipal acabaram por fazer o vereador perder seu poder, seu cargo e seu capital político. Como sintetizou Daniela em seu depoimento durante a Conferência Latinoamericana de Jornalismo Investigativo, em Lima (Peru), o político que começou a carreira doando caixões aos eleitores, acabou enterrado politicamente pela torrente investigativa desatada por uma conversa com um motorista de táxi.

A série de reportagens ficou em primeiro lugar na sétima edição do Prêmio IPyS de Jornalismo Investigativo. Dividiu o prêmio de US$ 25 mil com uma reportagem sobre as suspeitas finanças da Igreja Católica na Costa Rica, publicada por Gianinna Segnini no diário La Nación.

Escrito por Jose Roberto de Toledo

17/08/2009 em 23:00

Destaques da Colpin IPyS – 1

Colpin: Conferência Latinoamericana de Jornalismo Investigativo, organizada por IPyS

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Lima, Peru, entre 15 e 18 de agosto de 2009

……………………………………………………………………….

Mirko Lauer, presidente de IPyS:

Às vezes dá a impressão de que é o jornalismo investigativo que provoca a corrupção. Porque quanto mais se investiga, mais aparece a corrupção.

Gustavo Gorrit, jurado do prêmio IPyS

Estamos em um contexto de profunda crise do jornalismo e do jornalismo de investigação, com redução das redações em toda parte, e uma das primeiras coisas a serem eliminadas são as unidades de investigação. Qual impacto terá isso no futuro? As unidades que sobreviveram seguem produzindo de maneira notável, e boa parte dos trabalhos premiados vêem deles.

Diferenças entre jornalismo investigativo dos EUA e América Latina: há muito mais ênfase na AL na investigação baseado em fontes humanas do que em RAC e Database journalism. São fontes cultivadas ao longo de muito tempo que dão acesso a informações valiosas.

Gerardo Reyes, (El Heraldo)

As condições em que o jornalismo de investigação é feito na América Latina são quase heróicas, e é feito por gente solitária. Aqui (na AL) se faz jornalismo investigativo “apesar de”  e não “graças a”. O principal tema dos inscritos no Prêmio IPyS é o setor público, que ocupa 53,8% das investigações, em contraste com os temas financeiros com apenas 2,6% de participação. O crime organizado e lavagem de dinheiro só respondem 8% dos inscritos.

Mike Reid (editor para as Américas de The Economist)

Uma das funções do editor é ser cético frente à informação, representar o leitor.

Nos últimos 20 ou 30 anos os meios de comunicação na América Latina, com todos os seus defeitos, jogaram um papel fundamental na consolidação da democracia. O que está acontecendo em alguns países da AL é uma coisa nova, é uma volta da propaganda. Há alguns governos na região que cinicamente desmentem qualquer investigação e que não estão interessados nos fatos, por isso o jornalismo é mais difícil do que nunca. Na Europa, quando fazemos investigação, o pior que enfrentamos é retaliação legal. Na América Latina, investigar implica arriscar a vida. O crime organizado é uma ameaça grande e crescente. O campo ambiental é cada vez mais importante, junto com o econômico e de negócios. As empresas privadas jogam um papel fundamental na democracia mas isso não lhes exime de serem investigadas. Eu gostaria que os jornalistas se dedicassem mais a isso.

Gerardo Reyes, (El Heraldo)

A movimentação anual de cocaína nos EUA  é de US$ 34,362 bilhões. Se fosse uma empresa, a Narcotráfico S/A ficaria em 7º lugar no ranking da revista Forbes.

Os bancos calculam que vale a pena correr o risco de aceitar depósitos suspeitos, porque as sanções não são tão pesadas assim. Pagam a multa e tudo bem, porque quem sofre sanções são os funcionários que abrem as contas, e não os altos executivos.

São três as principais técnicas para lavar dinheiro na América Latina:

1) enviar dinheiro por avião privado ou de linha para o exterior

2) trocar dólares do tráfico por pesos em Colômbia trocando por contrabando de produtos (eletrodomésticos, cigarros e bebidas) norte-americanos para a Colômbia. Mandam-se os produtos (drogas e contrabando), mas o dinheiro não sai do país, só troca de mãos.

3) negociação com títulos da dívida mexicana (bônus dos anos 30), muito bom porque o comprador pode adquirir os bônus através de um corretor sem revelar o nome do possuidor (bônus ao portador).

Escrito por Jose Roberto de Toledo

16/08/2009 em 13:22

Datafolha esfria candidatura Marina e derruba mito telefônico

O resultado da pesquisa Datafolha sobre a sucessão presidencial acaba com dois mitos: 1) Marina Silva não é o bicho-papão de Dilma Rousseff, 2) a pesquisa do Ipespe para o PV feita pelo telefone não mostrava a opinião de todo o eleitorado ao dar a senadora à frente da ministra.

O Datafolha encontrou 37% de intenção de votos para José Serra (PSDB), e um empate técnico entre Dilma (PT) e Ciro Gomes (PSB): 16% e 15%, respectivamente. Heloisa Helena (PSOL) chega a 12% e está em quarto lugar. Marina ficou com apenas 3%, em quinto. O Datafolha entrevistou 4,1 mil eleitores (sinal de que fez pesquisas para governador também) e a margem de erro máxima é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos.

Por encomenda do PV, o Ipespe de Antonio Lavareda fez pesquisa pelo telefone em meados de julho com quatro cenários diferentes. Em um deles (com Serra e sem Ciro), Marina superava Dilma por oito pontos. Já no mesmo cenário divulgado pelo Datafolha, as diferenças são muito maiores do que um erro amostral permitiria: Serra 28%, Ciro 16%, Dilma 14%, HH 13%, Marina 10%, segundo o Ipespe.

Ou seja, em comparação ao Datafolha, a pesquisa encomendada pelo PV subtrai nove pontos de Serra e acrescenta sete para Marina. Os outros candidatos sofrem variações dentro da margem de erro. Entre as 4,1 mil entrevistas pessoais do Datafolha, um instituto independente, e as 2 mil entrevistas telefôncias do Ipespe, um instituto que trabalha principalmente para políticos, não é difícil imaginar qual deve estar mais próximo da verdade.

Como foi antecipado em post ontem, pesquisa telefônica no Brasil não é capaz de medir a intenção de todos os eleitores, porque os mais pobres não têm telefone fixo e ficam de fora da consulta. E são eles que têm decidido as últimas eleições. É preciso tomar cuidado com a divulgação de pesquisas de intenção de voto neste período pré-eleitoral, em que os controles da Justiça são mais frouxos. Aumenta muito o risco de comprar gato por lebre.

PS: sustento acima que, pelo Datafolha, Heloisa Helena não está empatada com Dilma nem com Ciro, apesar de a margem de erro máxima ser de dois pontos e a diferença entre eles ser menor que a soma das margens. É que para os percentuais de intenção de voto desses candidatos (12%, 15% e 16%) a margem de erro é menor: 1,2 ponto para Dilma, 1,1 para Ciro, e 1 para HH. Logo, a presidenciável do PSOL poderia ter no máximo 13%; Dilma teria no mínimo 14,8%, e Ciro, 13,9%. Logo, HH não alcança Ciro nem Dilma. A margem de erro máxima de 2 pontos é para percentuais de intenção de voto em torno de 50%.

Escrito por Jose Roberto de Toledo

15/08/2009 em 18:14

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