Arquivo para agosto 27th, 2009
O poder supremo do Twitter. Será?
ESTE POST FOI ATUALIZADO E CORRIGIDO (a versão original, para quem quiser conferir, está depois da “quebra” da página)
A repórter Vera Magalhães (@veramagalhaes), da Folha de S.Paulo, fazia a cobertura ao vivo, pelo Twitter, do julgamento do ex-ministro Antonio Palocci no Supremo Tribunal Federal. Notebook nas mãos e muitas notícias na cabeça, disparava posts em tempo real sobre as observações dos ministros e a linha de defesa dos advogados, alinhavando o juridiquês das fontes com a descrição das cenas que via no plenário.
A cobertura ia muito bem, mais de 100 notas publicadas, referendadas e retuitadas ao ponto de o alcance dos posts ser 15 vezes maior do que o número de seguidores da jornalista. É que seus seguidores retransmitiam os posts que mais gostavam para seus próprios seguidores, e assim indefinidamente, multiplicando o raio de influência da autora original -numa proporção muito além do que Vera poderia imaginar. Em breve ela teria uma noção mais acurada do alcance real de suas notas.
A certo ponto da cobertura, a jornalista postou: “Acaba de sentar um mala do meu lado. Agora tenho de digitar com o laptop no colo”. E tocou o barco da cobertura. Três horas e vinte e dois minutos depois, Vera interrompeu a sequência de notas sobre o julgamento para publicar, com charme, uma nota que poderia ser chamada de meta-cobertura: “Saia-justa na cobertura online. Desculpa aí @LCSchama RT @LCSchama: @veramagalhaes Desculpe te atrapalhar. Ass.: o mala ao lado.”
Tradução: o advogado Caio Leonardo Bessa Rodrigues, supostamente sentado ao lado de Vera, havia tomado conhecimento da nota sobre si e respondera, elegantemente, pelo mesmo canal, o Twitter: “@veramagalhaes Desculpe te atrapalhar. Ass.: o mala ao lado.”
Tudo muito bonito, não fosse um trote. Na verdade, @LCSchama não estava no STF. Apenas passou-se pelo “mala ao lado”. Vera explica porque acreditou que @LCSchama era ele: “Eu só vi o pedido de desculpas pelo www.search.twitter.com horas depois. O mala real já tinha ido. Tudo combinava!!!”
A confusão jurídico-cibernética não terminou aí. Este que vos escreve publicou um post neste blog contando o episódio. Replicada pelo próprio Twitter, a nota virou epidemia: em menos de duas horas houve dezenas e dezenas de retuitadas e o número de acessos a este post foi multiplicado por 10. Todos acreditamos que tínhamos vivenciado uma história edificante sobre o poder viral do Twitter blablablá.
Até que, horas depois, veio a revelação da farsa, em uma mensagem do @LCSchama dirigida a @veramagalhaes: “Não estive no STF, só segui seus tweets (…). Incorporar o mala foi irresistível, mas irreal”.
“Gente, me sinto personagem de uma trama hitchcockiana. Alguém tem de avisar o @zerotoledo para fazer o epílogo com a confissão do @LCSchama”, escreveu Vera no Twitter às 22h39. Eis aqui o epílogo: não checou, dançou. Foi o meu caso.
Comparado a que? Eis a questão
A matemática é uma ciência exata, mas interpretar números é o reino do relativo. Um mesmo valor pode ser grande ou pequeno dependendo da comparação. Saber comparar, portanto, é o grande desafio para jornalistas quando escrevem (ou falam) sobre qualquer assunto que envolva estatísticas.
“O patrimônio do deputado Sinfrônio dobrou de valor em quatro anos de mandato”. É muito ou pouco? Depende. E, pior, depende de vários fatores: do patamar de onde o deputado partiu, se o ritmo de crescimento dos seus bens desacelerou ou se intensificou nos últimos tempos, e de como ele se saiu em relação a seus pares. Se, na média, o patrimônio dos outros parlamentares quadruplicou, então Sinfrônio deve estar na oposição.
Mas se Sinfrônio tinha um Fusca 68 e morava de aluguel antes da eleição, e agora detém um quarto-e-sala e anda de Honda Civic 99, é provável que seu patrimônio tenha dado um salto em termos proporcionais (deduplicado, dependendo da quilometragem do fusquinha). Em valores absolutos, entretanto, ele é tão emergente quanto um eleitor da classe C.
Já o senador Argentário viu seu patrimônio crescer “apenas” 40% ao longo de oito anos de mandato, de R$ 100 milhões para R$ 140 milhões. Classificando-se pela coluna do crescimento relativo do patrimônio, ele se equivaleria ao baixo clero do Congresso. Já pela coluna do crescimento absoluto, Argentário frequentaria o sínodo dos cardeais bigodudos.
Mais complicada de se analisar é a situação do deputado Retilíneo. Seu patrimônio (que não é uma fortuna mas é maior do que o seu, o meu e o nosso) cresceu na mesma média dos seus colegas de partido ao longo dos últimos quatro anos: 200%. Porém, antes de virar-casaca e se transferir da oposição para uma sigla da base aliada, no mandato anterior Retilíneo tinha empobrecido alguns milhares de reais. A notícia, portanto, é a mudança de vetor, de desaceleração para o espetáculo do crescimento.
Os exemplos acima, por mais estúpidos que pareçam (deputado empobrecendo?!), mostram que não há uma regra única para se comparar e, portanto, para se analisar os números. Tudo depende de com que se compara.
Felizmente, alguém já pensou nisso antes e inventou um negócio chamado estatística descritiva. São algumas fórmulas básicas que o jornalista pode usar quando tem que mastigar uma tabela cheia de cifras:
- calcule a média (soma dos valores dividida pelo número de fatores)
- calcule a mediana (ponto médio de um intervalo de dados, ex: num conjunto que vai de 1 a 5, é 3; se fosse de 1 a 6, seria 3,5)
- compare média e mediana (quanto mais distantes uma da outra, mais desigual é a amostra: se a média for muito maior, é porque tem alguém puxando ela para cima e vice-versa)
- identifique o valor máximo
- identifique o valor mínimo
- subtraia o mínimo do máximo para calcular a amplitude da mostra
- calcule a variação bruta dos valores no tempo, subtraindo o mais velho do mais novo
- calcule a variação proporcional, dividindo a variação bruta pelo valor mais novo
- procure padrões de comportamento nos números
- identifique os pontos fora da curva, aquilo que foge ao padrão, ou seja, a notícia
Cálculos feitos, o jornalista terá parâmetros para comparar um valor específico com os demais e saber se aquilo é muito ou é pouco. Claro que tudo isso fica muito mais fácil usando uma planilha de cálculo como Excel ou Google Spreadsheet.