Arquivo para agosto 2009
Datasus atualiza dados de mortalidade (e tem notícia)
O Datasus atualizou os dados de mortalidade no seu site e incorporou as estatísticas de 2007. Não vá achar que o dado está velho porque é o mais novo que há se você quiser comparar todos os municípios do Brasil, ou as unidades da Federação. É uma nova e vasta safra de pautas pedindo para ser colhida. Basta entrar em “Informações de Saúde/Estatística Vitais” e escolher o que você quer consultar na base de dados do SIM (Sistema de Informações de Mortalidade).
Para ficar apenas no assunto que rende mais manchetes: os homicídios caíram 3% em um ano, para 47,7 mil em 2007. Antes de manchetar isso, é melhor investigar os dados. Porque a queda das mortes por agressões (é o termo técnico da Classificação Internacional de Doenças para designar os assassinatos) veio acompanhada de um crescimento de 24% das mortes por “eventos cuja intenção é indeterminada”. Em números absolutos, saíram 1,4 mil corpos por um lado e entraram 2,2 mil pelo outro. Mero acaso?

Um bom epidemiologista explicaria que dentro do item “eventos cuja intenção é indeterminada” se escondem muitos homicídios. Imagine a seguinte situação: o cadáver foi encontrado com seis tiros na cabeça, mas quem assinou o atestado de óbito não registrou “agressão” na causa de morte, mas “intenção indeterminada”, porque não foi capaz de dizer se foi um assassinato ou um suicídio. A checar, mas aposto que entre 50% e 80% dessas mortes são assassinatos. De novo, um bom epidemiologista pode dizer quanto.
O aumento das mortes violentas por “intenção indeterminada” merece investigação porque foi concentrado em um Estado, o Rio de Janeiro. Das 2,2 mil mortes sem autor identificado que ocorreram a mais em 2007 na comparação com o ano anterior, nada menos do que 1,5 mil vieram do Rio. Pior, isso significou um pulo de 90% nesse tipo de morte entre as vítimas fluminenses. Me parece que tem notícia aí, esperando apenas um repórter para revelar-se.
Para armazenar páginas da web
Às vezes você quer guardar uma página da web para colocar num PowerPoint ou para consultar depois, offline. Ou você tem um blog e quer fazer um arquivo de todo o seu conteúdo, mas mantendo a cara do site. Os usos e situações podem variar, mas é bom saber que há uma maneira fácil e eficiente de transformar uma página de web em PDF: http://html-pdf-converter.com/. A dica é do Alon Feuerweker, que usou a ferramenta para PDFar todo o seu BlogdoAlon.
Pesquisa telefônica no Brasil não ouve pobres
A pesquisa Datafolha sobre eleição presidencial a ser divulgada neste final de semana vai aclarar as chances reais de Marina Silva (PV ou PT?) na sucessão de Lula. Nada como trazer um pouco de racionalidade científica para um debate tão repleto de achismos. A pesquisa servirá ainda para tirar à prova levantamento telefônico feito pelo Ipespe de Antonio Lavareda por encomenda para o PV. A enquete indica a ex-ministra do Meio Ambiente oito pontos percentuais à frente da candidata do governo, Dilma Rousseff.
Comparar é importante porque pesquisa telefônica no Brasil não consegue, ao que se sabe, captar a opinião de uma parcela que decidiu as duas últimas eleições presidenciais: os pobres. Porque as pessoas das classes D e E não têm telefone fixo em casa e não são ouvidas pelos pesquisadores. “Pesquisa eleitoral que represente todo o eleitorado brasileiro só dá para fazer pessoalmente”, afirma o diretor do Datafolha, Mauro Paulino.

Lavareda parece não concordar. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo (13 de agosto), o consultor do PV defendeu seus métodos e tentou torpedear um dos meios tradicionais de coleta, a entrevista domiciliar: “Nas pesquisas em domicílios, muitos moradores de apartamento ficam de fora porque o zelador não deixa entrar”. A matéria não trás comentários de Lavareda sobre a pesquisa pessoal em ponto de fluxo, técnica historicamente empregada usada pelo Datafolha e incorporada parcialmente pelo Ibope para contornar dificuldade de acesso dos pesquisadores a moradores de áreas controladas pelo narcotráfico e condomínios de luxo, por exemplo.
Dez perguntas sobre RAC para Lise Olsen, diretora do IRE (EUA)
“O Brasil é um dos países líderes em jornalismo investigativo no mundo”. A frase seria cabotina se dita por um brasileiro. Mas quem a formulou tem experiência e conhecimento sobre o assunto -o que só aumenta a importância da declaração.

Integrante do conselho diretor do Investigative Reporters and Editors (IRE), a Abraji dos EUA (eia pretensão), Lise Olsen é repórter investigativa do Houston Chronicle, um dos maiores jornais dos EUA. Lise teve um papel fundamental na disseminação das técnicas de Reportagem com Auxílio do Computador (RAC) na América Latina. Esteve à frente do IRE do México entre 1996 e 1998 e deu cursos de RAC em mais de uma dezena de países, inclusive o Brasil, ainda na segunda metade dos anos 90.
Por causa de seu pioneirismo no RAC brasileiro nasceu a ideia de iniciar por Lise esta que, espero, seja a primeira de uma série de entrevistas com jornalistas que são paradigmas do uso do computador como uma ferramenta de apuração e/ou organização e análise de informações.
1 – Como você começou a trabalhar com RAC e por que?
Lise Olsen - Eu logo fiquei excitada com o poder do uso de documentos para expor segredos e corrupção. Em 1994, eu comecei a aprender RAC depois de perceber que o computador nos permitiria analisar milhares ou mesmo milhões de dados muito mais rapidamente do que resgatando um fichário de cada vez de um arquivo físico. Mas, é claro, eu ainda faça as duas coisas (RAC e pesquisa a arquivos de papel).
2 – Desde que você começou, quais foram as principais mudanças ocorridas nas técnicas de RAC?
Lise – A principal mudança foi a explosão da internet. São tantas bases de dados disponíveis na web hoje me dia que eu fico surpresa que ainda haja algum repórter que não tenha se dado conta de que é necessário saber técnicas de RAC. Também se tornou muito comum para repórteres que fazem investigações usar planilhas eletrônicas. Nos velhos tempos, apenas os repórteres de economia e negócios sabiam lidar com elas. E hoje todo mundo está “blogando”, e montando bases de dados interativas e mapas, tornando nossas investigações mais interativas e acessíveis para o público do que jamais foram.
3 – Como você se mantém atualizada sobre as novas tendências de RAC?
Lise – Eu frequento as conferências organizadas pelos grupos mais avançados como o IRE, o Knight Center for Journalism in the Americas e, quando tenho sorte, da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e do IPyS (Instituto Prensa y Sociedad, do Peru) na América do Sul. E frequentemente peço conselhos a amigos que se especializaram em diferentes aspectos do RAC, como pesquisa de notícias, mapeamento, estatística e programação.
A nova onda que promete sepultar o e-mail e o instant messenger
Google Wave. Lembre-se desse nome, porque ele vai mudar sua vida digital. É uma ferramenta ainda em fase de desenvolvimento que casa o e-mail com o instant messenger com um editor de texto colaborativo com um tradutor instantâneo com Google Maps com álbum de fotos online com o seu blog com o Twitter com o seu celular com… um monte de outras coisas bacanas.
A definição oficial é “sistema de comunicação pessoal e ferramenta de colaboração online”. Infelizmente é daqueles casos em que as palavras parecem insuficientes para descrever o fato. Como o Twitter, só vendo para entender as possibilidades. Dá para ter uma ideia assistindo a este vídeo no qual um dos pais do Google Wave, Lars Rasmussen (o criador do Google Maps), demostra algumas das originalidades de sua cria. Exemplos:
Você seleciona um ou mais destinatários, começa a escrever e, se quiser, as letras aparecem instantaneamente, uma a uma, na tela do(s) interlocutor(es);
Você e mais quatro ou cinco pessoas podem editar um mesmo texto online em tempo real e ver o que cada um está fazendo instantaneamente -isso significa não apenas mudar o texto, mas acrescentar imagens, fotos, mapas (imagine os impactos disso na edição de uma matéria jornalística, de uma página de web etc);
Em uma conversa coletiva, você pode chamar dois ou três pessoas num canto virtual e entabular uma conversa a três sem que os demais possam lê-la;
Em uma entrevista com um norte-americano via Google Wave você escreve em português e o texto aparece para ele em inglês, e vice-versa com as respostas.

Em resumo, o Google Wave se propõe a ser sua única ferramenta de comunicação, concentrando tudo em uma só interface: e-mail, leitor de notícias online, editor de texto, MSN, ferramenta para postagem de mensagens no seu blog ou no seu Twitter, e por aí vai. Apesar de o produto ainda estar em fase de testes, com um grupo limitado de desenvolvedores, já há muita coisa sobre ele na internet, inclusive um suposto “guia completo”.
Outro ponto que aumenta a chance de o Google Wave se tornar um sucesso é que ele tem seu código aberto, o que permite a qualquer desenvolvedor de softwares e aplicativos criar complementos, adaptar sua interface, personalizar seu jeitão. Ferramentas para usar o novo aplicativo no celular também estão em fase avançada de testes, como se pode ver aqui.
Claro que o sucesso ou o fracasso da nova ferramenta vai depender de sua universalização e da velocidade de adoção pelos usuários. Como ele é essencialmente colaborativo, não adiantará muita coisa se apenas você tiver ele instalado no seu computador, mas seus amigos e colegas de trabalho não. O Twitter também passou por isso e deu no que deu.
Passa da hora de alguém sepultar o e-mail. Não apenas pela poluição do spam que entope seus canais e toma nosso tempo. Mas porque é uma tecnologia mais velha do que eu (a primeira mensagem é de 1965).
Jornalismo investigativo sem alarde
Quem não leu deveria ler “Sergio Rosa e o Mundo dos Fundos”, de Consuelo Dieguez, publicada na edição 35 da Piauí (ainda nas bancas; a versão online só está aberta para assinantes). É uma reportagem de fundo (sem trocadilho), disfarçada de perfil “do presidente do maior fundo de pensão da América Latina, Previ, a caixa de previdência dos funcionários do Banco do Brasil, que tem um patrimônio de R$ 121 bilhões”. Através de suas sete páginas é possível compreender quem é quem no grande jogo político-financeiro em curso no Brasil, quais suas conexões e interesses.
É um ótimo resumo para quem passeia distraído pelo noticiário sem se dar conta dos nexos entre siglas e nomes que ocuparam e ocupam tantas manchetes: operações Xeque-mate e Satiagraha, mensalão, Gamecorp, Telemar, Brasil Telecom, Grupo Opportunity, Citi, Telecom Itália, Andrade Gutierrez, PT, PSDB, OSI, CVM, STJ, STF, Polícia Federal, Abin, Vale do Rio Doce, Embraer, Petrobras, CPFL, Brasil Foods, além de dezenas de pessoas que vão do presidente da República a obscuros lobistas, todos atolados nos fundos das relações de poder no Brasil.

O melhor: o texto é agradável de ler. Em vez de um relatório esquemático, que seria o maior risco da matéria, o leitor é conduzido pela teia de relações pessoais, societárias e políticas sem fazer esforço. Claro que os experts farão ressalvas. Claro que já houve dezenas de outras matérias que trataram do tema, algumas mais profundamente e no calor dos fatos _notadamente a série de reportagens produzida por Bob Fernandes desde Carta Capital até Terra Magazine ao longo dos últimos 10 ou 12 anos.
O valor maior dessa reportagem disfarçada de perfil é entregar de bandeja ao seu leitor um resumo, um quem-é-quem de uma das disputas mais sintéticas do que é a política e o capitalismo no Brasil, e as transformações por que vem passando nos últimos anos. Aliás, se já não está pensando, Piauí e editora Alvinegra deveriam pensar em lançar em livro os melhores perfis publicados ao longo dos últimos três anos, como os de Dilma Rousseff (por Luiz Maklouf Carvalho), José Dirceu (por Daniela Pinheiro) e Fernando Henrique Cardoso (por João Moreira Salles).
Se você, jornalista, está interessado em montar um banco de dados para ajudá-lo em suas futuras reportagens, catalogar e indexar os nomes e siglas citados no texto escrito por Consuelo Dieguez lhe darão um ótimo começo. Só falta acrescentar CPFs e CNPJs aos personagens.
Minoritários, homens não largam o osso nas redações
As mulheres formam uma maioria cada vez mais ampla nas redações brasileiras, mas não estão podendo tanto assim. Elas ainda ganham, em média, 19,5% menos do que seus colegas do sexo masculino. Embora a diferença salarial já tenha sido maior, a dificuldade de acesso aos postos mais altos na hierarquia se manteve constante nos últimos anos e é a principal responsável por essa discrepância.

As repórteres, redatoras e editoras são uma maioria crescente em praticamente todas as faixas salariais, menos na mais alta. A partir de 20 salários mínimos mensais, a proporção é de 58 homens para 42 mulheres. No total dos jornalistas com emprego formal, as mulheres são 54%.
O Clube do Bolinha no topo da pirâmide jornalística tem se mantido dominante desde 2003, a despeito dos enxugamentos e demissões. Os dados extraídos da RAIS (Relação Anual de Informações Sociais, do Ministério do Trabalho) mostram que as posições mais bem pagas estão cada vez mais raras nas redações. Havia quase 3 mil cargos com salários acima de 20 s.m. em 2003. No ano passado essas posições não chegavam a 2,1 mil.
O mercado formal para jornalistas incorporou 12 mil novos postos de trabalho nos últimos seis anos, chegando a cerca de 38 mil colocações. Mas esse crescimento ocorreu apenas na base da pirâmide. O andar de baixo, onde 14 mil jornalistas brasileiros ganham menos do que três salários mínimos, já representa 37% do total da categoria (era 27% há seis anos). Desses, 60% são mulheres.
Se a base se expandiu, a ponta encolheu. A explicação é conhecida: o processo de transformação dos chefes em Pessoas Jurídicas, para driblar a catarata de impostos e encargos, o que os subtrai da base de dados da RAIS.
Mulheres na frente
Segundo a RAIS 2008, as mulheres são maioria entre os jornalistas formalmente empregados no Brasil: 54,4%. Em números absolutos, são 3,3 mil a mais do que homens. E são maioria em todos os locais de trabalho onde há jornalistas contratados (ou estatutários): empresas privadas, estatais e nas três esferas de governo.
A RAIS é a Relação Anual de Informações Sociais que as empresas e órgãos públicos e privados são obrigados a enviar ao Ministério do Trabalho no começo de cada ano, com informações sobre todos os seus funcionários com registros ativos em 31 de dezembro do ano anterior.
A RAIS é, portanto, uma medida de estoque. Complementarmente, existe o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), uma medida de fluxo: as empresas são obrigadas a enviar um relatório mensal ao MTb com todas as suas demissões e contratações.
Embora não englobem o mercado de trabalho informal, essas bases de dados são excelentes fontes de pautas. Você pode se candidatar a receber a íntegra da RAIS e do Caged junto ao serviço de divulgação de informações estatísticas do MTb.
Números sim, numeralha não
Autora de Numbers in the Newsroom, a jornalista norte-americana Sarah Cohen sugere que você não escreva mais do que oito algarismos por parágrafo. E isso inclui os zeros de, por exemplo, R$ 8.556.000,00 (este é um mau exemplo porque tem nove algarismos).
Tampouco vale dividir os parágrafos em frases curtas cheias de números para burlar a regra. A meta por trás da sugestão é evitar transformar seu texto em uma tabela disfarçada. Os números são importantes, mas as palavras devem prevalecer nas sentenças, e as ideias e argumentos devem comandar os períodos em vez das cifras, sob risco de você espantar o leitor para a próxima notícia.
Difícil? Claro que isso vai depender do tema sobre o qual você está escrevendo. Mas há alguns truques que você pode lançar mão para facilitar essa tarefa.
- Se possível, troque 50% por “a metade de”, use “um terço” em vez de “33%”, ou ainda “quatro em cada dez” no lugar de 40%.
- Arredonde, sempre que isso não comprometer a precisão da informação: se o número for menor do que cinco, arredonde para baixo e vice-versa; se for igual a cinco, olhe para o algarismo anterior e replique a regra. Exemplo: o número citado no primeiro parágrafo poderia ser arredondado para R$ 8,6 milhões.
- Quanto maior o número, mais arredondado ele pode ser.
- Para a maioria dos leitores, detalhes numéricos atrapalham mais do que ajudam. Afinal, é mais fácil de memorizar que a Delta Construções recebeu R$ 370 milhões do governo federal no ano passado ou R$ 370.078.449,33 em 2008?
- Selecione apenas os números que realmente importam.
- Intercale frases, citações, tiradas entre parágrafos repletos de números (leia a reportagem de Gay Talese sobre Nova York a partir da pg 19 de Fama & Anonimato).
- Ao descrever uma evolução numérica seja conciso. Prefira “o preço do tomate dobrou, para R$ 2/kg” a “o preço do tomate aumentou de R$ 1,00 para R$ 2,00 o quilo, o que representa um crescimento de 100%”.
- Use, com parcimônia e evitando clichês, imagens para retratar números cujo significado é difícil de ser imaginado. Em vez de escrever apenas “a vazão do rio Amazonas é de 209 mil metros cúbicos por segundo”, prefira “o rio Amazonas levaria uma hora e vinte minutos para colocar o equivalente à área urbanizada de São Paulo sob um metro de água”.
Crise atrapalha, sim, a diminuição da pobreza
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) do governo federal divulgou estudo nesta terça mostrando o que aconteceu com a pobreza e com a desigualdade de renda no Brasil após a crise financeira. Em seu site e no texto de introdução ao estudo, o Ipea foi arrojado nas conclusões: “País reduziu pobreza e desigualdade mesmo durante a crise”, foi o título. A divulgação foi transparente, em tempo real pela internet, com a participação do presidente do instituto, o respeitável economista Marcio Pochmann.
Há uma imprecisão, porém, que se percebe de cara. O estudo, como está explicitado pelo próprio Ipea, é baseado na Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE, que se limita a seis regiões metropolitanas. O próprio nome do estudo é “Desigualdade e Pobreza no Brasil Metropolitano”. Não se pode expandir, portanto, seus resultados para todo o país. Mas o problema não ficou nisso.
Os sites de notícias, premidos pelo tempo e pela ideia de que é melhor dar antes do que dar melhor, compraram o estudo do jeito que foi vendido e estamparam manchetes como “Pobreza e desigualdade caem mesmo durante a crise, diz Ipea”. À noite, após analisar o estudo com calma, o Jornal Nacional foi mais cauteloso, e fez uma necessária diferenciação entre a queda significativa e constante da desigualdade medida pelo índice de Gini, e a taxa de pobreza, que oscilou para cima e para baixo nos meses de crise, sem definir uma tendência clara.
Os números frios
Quando trata da desigualdade, o relatório do Ipea é rico em dados. Começa plasmando a tendência de longo prazo, o que é sempre bom: entre dezembro de 2002 (pico) e junho deste ano o índice de Gini médio das seis metrópoles caiu 9,5%, ao patamar mais baixo já registrado, 0,493 (se fosse zero, equivaleria a que todos ganhassem exatamente o mesmo valor).
E no curto prazo, de janeiro a junho de 2009, a queda no Gini foi a maior verificada desde 2002: 4,1%. Para fechar bem a explicação, o gráfico ilustrativo evidenciava que, a despeito de a desigualdade ter patinado ao longo de 2008 e ter dado um salto entre dezembro e janeiro, de lá para cá ela retomou a tendência de queda verificada desde o começo do governo Lula, o que deve-se em grande parte às políticas de distribuição de renda para os mais pobres. Até aqui, tudo bem.
O tropeço do relatório está no tópico sobre a diminuição da pobreza. Não se repete a mesma abundância de dados, o gráfico ilustrativo mostra que já houve momentos de pobreza menor do que o atual, e os recortes destacados no texto tentam provar uma tese, mais do que revelar todas as ambiguidades do processo.
No longo prazo, não resta dúvida, o percentual de moradores das metrópoles vivendo abaixo da linha da pobreza de meio salário mínimo per capita foi reduzido em um quarto: de 42,5% em março de 2002 para 31,1% em junho passado. Para o Ipea, essa queda está dividida em duas etapas, uma mais rápida, no começo, e outro mais lenta, a partir de janeiro de 2007.
Porém o relatório cala sobre o período mais recente e os efeitos da crise financeira global sobre a pobreza nas metrópoles brasileiras. Foi necessário a repórter Gisele Lobato pedir -e receber rapidamente, registre-se- a série mensal completa ao Ipea para que fosse possível analisar os dados nos últimos meses.
Em junho do ano passado iniciou-se uma nova queda no percentual de pobres, que durou até dezembro, quando bateu em 30,1%, o valor mais baixo da série histórica. Nesse período, cerca de 1 milhão de pessoas (o equivalente a 2,2 pontos percentuais) venceram a linha da pobreza. Porém aí os efeitos da crise se fizeram sentir, e o percentual voltou a subir até chegar a 31,6% em maio, e recuar para 31,1% em junho.
É preciso esperar que os dados de julho e agosto apontem na mesma direção para confirmar-se uma nova tendência de curto prazo rumo a uma menor taxa de pobreza. Por ora o movimento é errático. Comparando-se apenas o número de junho de 2009 com o de setembro passado (mês em que a crise quebrou os primeiros bancos estrangeiros), pode-se dizer que a taxa de pobreza cresceu durante a crise. Mas isso é contar metade da história.

O fato é que a crise afetou negativamente o movimento histórico de redução da pobreza nas metrópoles brasileiras. Mas não o suficiente para reverter essa tendência de mais longo prazo. Se anualizarmos a série de dados, comparando sempre a média dos últimos 12 meses, veremos que ela mantém-se cadente, o que permite uma extrapolação: a queda da pobreza deve continuar, especialmente agora que o pior da crise já passou.
Não é preciso torturar os números nem omitir dados para chegar a essa conclusão. Mas não dá para forçar a barra e dizer que a pobreza caiu durante a crise.
Pobreza e desigualdade
Não se trata de espicaçar o bom trabalho do Ipea, ou procurar pelo em ovo. É que sem deixar clara a trajetória da taxa da pobreza não dá para explicar o que aconteceu com a distribuição da renda. Afinal, se o andar de baixo foi afetado pela crise, como a desigualdade pode ter diminuído nesse período? Porque o andar de cima perdeu mais…
O centro de estudos de pobreza do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, vizinho do Ipea, prepara um estudo sobre as relações entre pobreza e distribuição de renda em períodos de crise. Valerá a pena ler.