TOLEDOL, o blog sobre RAC

Reportagem com Auxílio do Computador (RAC) e jornalismo investigativo

Arquivo para novembro 2009

10 anos depois, de volta ao impresso (mas com pé na web)

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Comecei hoje a contribuir com o Estadão. Dez anos após deixar a Folha, volto ao jornalismo impresso e diário. Mas mantenho um pé na web, para onde migrei, junto com a torcida do Corinthians, em 2000. A contribuição para o Estadão é temática: escreverei sobre pesquisas e as eleições de 2010, tanto para o jornal de papel quanto para sua versão on-line. O primeiro texto “impresso” é este aqui. Tomando a 99ª pesquisa CNT/Sensus como gancho, analiso o comportamento do eleitorado e as chances dos candidatos.

Durante o período de colaboração para o Estadão, procurarei manter este blog atualizado na medida da minha disponibilidade de tempo. Pretendo não misturar os assuntos. Lá o conteúdo, e aqui, quando for pertinente, o “making of”.

Assim, eis algumas dicas sobre análise de pesquisa eleitoral:

1) Não se perca no mar de números, tente enxergar as grandes tendências. Elas são mais importantes do que as pequenas oscilações.

2) Use sempre a margem de erro, não apenas quando ela lhe convém. É fato: quando somamos a margem de erro de uma pesquisa com a da anterior, raramente há uma oscilação que possa ser considerada estatisticamente significativa. Se a margem for de dois pontos, ela precisa superar quatro pontos para poder se falar em alta ou queda. A margem de erro é proporcional ao tamanho da amostra (mas o tamanho da amostra não é proporcional ao tamanho do universo pesquisado).

3) A terceira dica é para ajudar a cumprir a segunda. Como é difícil haver notícia de uma pesquisa para outra, é mais proveitoso buscar tendências com pelo menos três pontos com a mesma direção na curva. Por exemplo: o candidato A oscila de 10% para 12% e em seguida para 15%, em três pesquisas consecutivas. Apesar de as variações de uma pesquisa para outra terem ocorrido dentro da margem de erro, pode-se falar em uma tendência de crescimento, porque a soma das variações supera a soma da margem de erro (de dois pontos, no caso). Isso só vale se não houver nenhuma variação em sentido oposto entre as pesquisas analisadas.

4) Sempre preste atenção na pesquisa espontânea, principalmente nas fases iniciais da campanha eleitoral. Ela tende a ser mais significativa do que a estimulada quando os percentuais de não sabe/não respondeu/branco/nulo somados superam 50%. É sinal de que o eleitor ainda não está preocupado com o assunto que lhe é proposto pela pesquisa. Nesses casos, as intenções de voto sinalizam mais um recall (memória) do que um propósito firme de sufragar aquele candidato.

5) Compare, tudo e todos: intenção de voto com avaliação do governante, pesquisas diferentes, eleições passadas e presentes, eleitores ricos e pobres, eleitoras e eleitores, jovens e velhos. Procure padrões de comportamento. Eles são mais importantes que as exceções.

6) Sempre leia o questionário original da pesquisa e confira a sequência das perguntas. A ordem das questões altera o produto: após responder a uma questão que obriga-o a emitir um juízo de valor sobre um dos candidatos o eleitor estará propício a manter esse juízo na hora de indicar sua intenção de voto. Se falou mal, dificilmente admitirá a possibilidade de votar nele.

7) Divulgue a metodologia da pesquisa: número de entrevistas, universo a que diz respeito a amostra, margem de erro, universo de confiança, data de campo da pesquisa, quem contratou a pesquisa e tudo o mais que possa influenciar os resultados.

8 ) Não compare diretamente resultados de cenários eleitorais diferentes. Se na pesquisa anterior havia mais candidatos ou eles não eram exatamente os mesmos da pesquisa mais recente, não se pode dizer que um candidato tenha caído ou subido de uma pesquisa para outra. As intenções de voto são sempre relativas, nunca absolutas. Elas dependem de quem está no páreo. Se os cavalos mudam, mudam também os resultados.

9) Lembre-se: enquetes feitas pela internet ou pesquisas feitas pelo telefone no Brasil não representam o total do eleitorado, porque nem todos os eleitores têm acesso a esses meios de comunicação. Além disso, não há controle rígido sobre a amostra de respondentes, e os mais interessados tendem a participar mais, distorcendo o resultado. Amostra boa é uma amostra que represente corretamente o universo pesquisado. Uma amostra estatisticamente controlada com duas mil entrevistas em todo o Brasil vale mais do que uma amostra com 100 mil respostas feita pela internet.

10) Mesmo as pesquisas científicas, baseadas em critérios estatísticos rígidos, estão sujeitas a um certo grau de incerteza e imprecisão. Uma pesquisa com margem de erro máxima de 3 pontos percentuais e intervalo de confiança de 95% indica que em 95 de cada 100 pesquisas feitas, a intenção de voto de um candidato que tem metade do eleitorado ficará entre 47% e 53%. Nas outras cinco, o erro será maior do que esse. Assim sendo, pequenas oscilações só devem ser vistas como sinal de mudança do eleitorado se forem constantes. Tampouco me parece relevante usar casa decimal depois da vírgula para tratar de intenção de voto. No texto do Estadão, arredondei todos os valores divulgados pelo Sensus.

Escrito por Jose Roberto de Toledo

24/11/2009 em 0:15

A noite em claro do Twitter

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O apagão de 10 de novembro foi muito semelhante ao de dez anos antes, tanto na extensão do estrago quanto na falta de clareza das explicações de suas causas. Mas a maneira como muitas pessoas se informaram e trocaram informações sobre o problema foi essencialmente diferente. Sem TV nem desktop, uma multidão se voltou ao celular e especialmente ao Twitter para saber o que estava acontecendo. E descobriu, em instantes, que o problema ultrapassava as fronteiras de sua casa, bairro, cidade, estado e país.

O Twitter já tinha dado mostras de ser uma ferramenta útil de informação quando explodiu a loja de fogos de artifício no ABC paulista, ou durante o tiroteio em Fort Hood (EUA). Mas o apagão (ou #apagao, como ficou conhecido) foi o primeiro evento de dimensões nacionais (e com repercussão internacional) a transformar o microblog em ferramenta primordial de informação no Brasil. Tuitei de madrugada “O Twitter foi a lanterna noticiosa do #apagao: mais ágil e até mais preciso do que muitos meios tradicionais”. A seguir explico as razões.

Em primeiro lugar, o Twitter não apagou. Parece pouco, mas, em uma emergência, isso faz toda a diferença. Enquanto a TV era inútil para quem estava no escuro, a rede de dados via celular ficou de pé na maioria dos lugares. Sites e portais noticiosos como G1 e globo.com saíram do ar e tiveram que operar pelo… Twitter. (Será que faltou a redundância de equipamentos que cobravam das redes de transmissão de energia?)

O segundo motivo é que o decantado crowdsourcing funcionou como nos manuais. Imediatamente as pessoas começaram a informar que na sua cidade ou bairro faltava energia, ou que ela havia piscado mas retornara. Com isso, como fez o site do Estadão, foi possível mapear por fontes independentes e corroboráveis a extensão do apagão. A terceira razão é consequência dessa.

Sabendo-se até onde chegava ou não o blackout, era possível deduzir a origem. Como apagou o Sudeste mas não o Sul, era provável que a sequência de eventos tivesse começado em Itaipu ou nos linhões de transmissão que lá se originam. A confirmação veio pelo próprio Twitter, através de um post da jornalista paraguaia Mabel RahnFeldt . Ela informava que a luz fora cortada mas retornara 15 minutos depois no seu país. Como Itaipu é o único ponto em comum entre os sistemas elétricos do Brasil e Paraguai, o apagão tinha que estar relacionado à hidrelétrica.

A quarta razão é que, como provou a própria Itaipu durante o evento, o Twitter se transformou sim em fonte primária de informação. Menos de uma hora depois do início do blackout, a direção da hidrelética criou a conta @usina_itaipiu no Twitter e passou a dar sua versão dos fatos. Em resumo, seus posts explicavam que o problema fora de Furnas, em uma das linhas de transmissão abastecidas por Itaipu, e que, como efeito reverso, pela primeira vez na sua história as 20 turbinas da usina foram todas desligadas, embora logo tenham voltado a funcionar parcialmente. A versão batia com a de outras fontes: se o problema original fosse na usina, a energia não teria logo voltado no Paraguai, ou teria acabado em Foz do Iguaçu (PR).

Em quinto lugar, o Twitter virou ferramenta de trabalho para os jornalistas, ao menos para aqueles que não estavam no escuro e ainda tinham um meio de comunicação comunicando. Fazendo busca pelas hashtags #apagao e #itaipu era possível ter o melhor panorama de onde a energia acabara, onde piscara e onde já tinha voltado e quando. Cidade a cidade, bairro a bairro. Imagens do apagão também eram publicadas em blogs e tuitadas, ajudando jornalistas a ilustrarem suas matérias. Como a que se vê abaixo, do site http://www.fotas.com.br/.

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Avenida Sumaré, em São Paulo, durante o apagão de 10 de novembro de 2010

Os exemplos de uso do Twitter por jornalistas durante a cobertura não se esgotam aí. Em São Paulo, a rádio Jovem Pan conseguiu entrevistar o governador José Serra fazendo contato pelo Twitter (ele próprio usou a ferramenta para dizer seu governo estava fazendo). No Rio Grande do Sul, a rádio gaúcha fez uma elogiada cobertura do apagão noite a dentro . A apresentadora Sara Bodowsky relata como o microblog a ajudou:

“Usei meu Twitter pessoal como verdadeira “clipagem” das notícias sobre o apagão. Agências como G1 e Época estavam fora do ar nos seus sites por problemas no servidor e atualizavam as notícias através do Twitter. Ao mesmo tempo, os ouvintes da Rádio Gaúcha (que durante a madrugada chega em São Paulo e Rio de Janeiro) traziam relatos sobre a situação das suas cidades. Uso o Twitter através de um programa de atualização constante. Isso permitiu que às duas da manhã, enquanto entrevistava ao vivo o diretor de Itaipu, Jorge Samek, usasse as notícias que chegavam em tempo real como apoio para a entrevista.”

O Twitter foi a lanterna noticiosa do apagão, mas continua sendo uma ferramenta. Como um garfo, pode ser usado para você se alimentar ou para espetar alguém. Depende de quem o usa e como. Houve é claro quem transmitisse boatos e notícias falsas (“energia só vai voltar em três dias”). Mas foram a exceção e não a regra.

Como ferramenta de comunicação direta, o Twitter tende a acabar com o mero intermediário, o atravessador da informação. Se Itaipu informa diretamente sua versão, para que o público precisa de um jornalista? Para contar todas as versões, para checá-las, para ver se batem com os fatos, para organizar informações dispersas, para contextualizá-la. Em resumo, para investigar. É isso que nos resta.

Escrito por Jose Roberto de Toledo

11/11/2009 em 11:56

Perguntar, confirmar e avisar: os limites com a fonte

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O jornalista Maurício Stycer levantou uma interessante questão em seu blog sobre até onde o jornalista deve ir quando o entrevistado fala uma bobagem. Devemos repetir a pergunta? Devemos confirmar o que ouvimos? Ou devemos avisar que ele disse uma besteira e que vamos publicá-la?

Difícil imaginar uma regra que se aplique automaticamente a todas as situações. Stycer elogia no seu blog o repórter Thiago Salata, do “Lance!”, que avisou o presidente do Palmeiras que iria publicar tudo o que ele estava dizendo (Belluzzo acusara um árbitro de “estar na gaveta”). Concordo com o elogio, mas nem sempre o aviso é possível. Recordo uma situação em que o aviso teria sido prejudicial à reportagem:

Eu cobria a Fiesp para a Folha de S.Paulo. O presidente era Mario Amato. Certo fim de tarde, ele conversava com meia-dúzia de jornalistas no restaurante da entidade quando foi interrompido por uma chamada telefônica. Ao voltar à roda, desculpou-se dizendo que precisou atender porque era a ministra do Trabalho, Dorothea Werneck. Como havia repórteres do sexo feminino na rodinha, Amato gracejou: “Ela é muito inteligente, apesar de ser mulher”.

Fiquei quieto. Voltei à redação, escrevi a matéria com a “boutade” do presidente da Fiesp e a editora de Economia Eleonora de Lucena levou a expressão ao título da matéria. Foi uma crise, mas, apesar de os outros jornais não terem publicado a frase, Amato não teve como desmentir. A história chegou ao ponto de Dorothea, anos depois, escrever um livro cujo título era… “Apesar de ser mulher”.

Se, na hora da entrevista, eu tivesse avisado Amato que ele tinha dito uma bobagem, ele teria se desdito automaticamente e os outros repórteres talvez tivessem publicado a história também.

Mas é um episódio a partir do qual não se pode tirar uma regra. Leia as respostas de outros jornalistas à questão feita por Stycer no Twitter. Elas dão uma ideia de quão distintas podem ser as abordagens nesse caso:

@mauriciostycer Amigos jornalistas, o repórter deve avisar ao entrevistado que ele está falando besteira?

@zerotoledo Boa questão. Eu só avisaria que ia publicar a besteira dita se não tivesse gravado e temesse q o entrevistado voltasse atrás

@profwillians Sim, mas se todo jornalista fizer isso, vai ter muita gente que nunca mais vai dar entrevista, pois só falam asneiras.

@MSavarese Creio que há outras maneiras de dizer isso. Algo como: “O senhor não teme a repercussão disso que está dizendo agora?”

@porcopedia Por que vocês, vestais, não falam a mesma coisa quando os jornali$tas é que falam besteira ?

@Cardoso pq você quer banir os ex-BBB de dar entrevista?

@eduloureiro Pela resposta de Belluzzo ao @JucaKfouri , não foi bem uma besteira // @mauriciostycer Eu deveria ter colocado “besteira” entre aspas.

@fchiorino Repórter avisa que está gravando. Aí o resto é por conta e risco do entrevistado

@estadodecirco Belluzzo, pessoa (supostamente) preparada, cinco horas após o ocorrido, precisa de alerta? Não acho.

@eduloureiro Em tempo: protocolarmente, acho que o único aviso necessário é: estamos gravando.

@Jugranjeia Futebol é tão podre quanto a política. Não existem pessoas ingênuas nesses meios. Mas acho q @ThiagoSalata foi profissional.

Escrito por Jose Roberto de Toledo

09/11/2009 em 10:34

Publicado em Jornalismo Investigativo

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Comparado a quê? Eis a questão

Em meio a tantas balas perdidas, o secretário de Segurança Pública fluminense, José Mariano Beltrame, fez um achado: “O Rio de Janeiro não é violento. O Rio de Janeiro tem núcleos de violência. Temos índices de criminalidade em determinadas áreas do Rio de Janeiro que são europeus. O Rio de Janeiro não pode receber um programa que seja o mesmo do Oiapoque ao Chuí (vide o blog Caso de Polícia)”.

Procurando bem, sempre é possível achar uma estatística que prove o que você quer. Afinal, como dizia o outro, “bem torturados, os números revelam qualquer coisa”. O secretário deve estar se referindo aos índices de criminalidade de um bairro da Zona Sul (as tais “determinadas áreas”) e comparando-os ao de um continente, o europeu. É covardia.

Não se deve comparar uma média heterogênea e ampla, como a da Europa, com a de um bairro pequeno e homogêneo, como a Urca. No limite, o raciocínio do secretário vai levá-lo a comparar o nível de criminalidade do Barra Shopping com o de Washington DC e concluir que é muito mais arriscado viver na Casa Branca do que na Rocinha.

Em favor do secretário, diga-se que ele não inventou essa chicana estatística. É muito comum os jornalistas usarmos esse recurso para enfatizar uma diferença e ganhar uma manchete. Você já deve ter lido algum título mais ou menos assim: “Bairro paulistano tem qualidade de vida suíça”. Diferenças climáticas e paisagísticas a parte, qualquer comparação de parte com o todo é uma manipulação. Não fosse assim, os rankings de qualidade de vida, criminalidade, IDH, PIB per capita etc seriam todos uma bagunça, misturando países, cidades, continentes, bairros.

É aceitável referir, em um contexto bem explicado, à semelhança entre os índices de violência de um bairro e os de um país, mas apenas como um parâmetro, para ilustrar se esse número é alto ou baixo, não como uma comparação direta.

Tome-se o caso dos homicídios. O que interessa é saber qual o risco que um morador de determinada área corre de morrer assassinado e compará-lo com o de outras áreas semelhantes. Podem ser bairros versus bairros, distritos versus distritos, cidades versus cidades, ou países versus países. Em todos esses casos, trata-se de um cálculo estimado, baseado em uma média e sujeito a erros.

Tanto menor a margem de erro quanto maior for a homogeneidade do universo em estudo. Se você quiser saber qual o seu risco pessoal de tomar um tiro fatal, divida quantos moradores do seu bairro, sexo e faixa etária foram mortos a bala ao longo de um ano pelo número de moradores desse mesmo bairro que sejam do seu sexo e estejam na sua faixa etária. Se você morar no centro paulistano, na República, terá um risco cerca de 20 vezes  maior de ser assassinado do que ser morar nos Jardins.

O mesmo vale para o Rio. Morar na Barra é mais seguro do que morar no Complexo do Alemão. Mas, na média, o risco de um carioca morrer assassinado é 2,4 vezes maior do que o de um paulistano (2007, Datasus). E nem sempre foi assim: em 2000, na média, um morador do Rio tinha menos chances de ser assassinado do que um morador de São Paulo. Talvez fosse mais seguro se o secretário se ocupasse em explicar essa estatística.

Escrito por Jose Roberto de Toledo

05/11/2009 em 17:40

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