Arquivo para março 2010
Um fato, vários gráficos e múltiplas interpretações
Eis alguns exercícios sobre como apresentar em um gráfico os resultados e as tendências das pesquisas de intenção de voto estimulada dos principais institutos, na eleição presidencial de 2010.
Conforme o método escolhido, muda sensivelmente a percepção sobre as tendências da eleição. Usando a mesma metodologia de cálculo da curva de tendência, a polinominal (adequada a situações como uma corrida eleitoral, em que os candidatos flutuam ao sabor dos acontecimentos), é possível mostrar um avanço consistente de Dilma Rousseff (polinômio com ordem 2) ou uma recuperação da vantagem por José Serra (polinômio com ordem 3), apenas mudando-se um parâmetro do cálculo -no caso, o número de vales/picos.
Por isso, prefiro um método menos popular entre os cientistas políticos, mas mais fácil de ser compreendido pelos leigos: a média móvel das últimas três pesquisas, representada pelos gráficos 1 e 2.
O gráfico 1 (abaixo) é o tradicional, acrescido de uma linha de tendência tracejada que representa a média das últimas cinco pesquisas para cada candidato. A margem de erro é representada por um traço preto perpendicular à linha de intenção de voto.
O gráfico 2 (abaixo) apresenta apenas os pontos de cada candidato em cada pesquisa, e as únicas linhas são as de tendência, calculada segundo a média das últimas três pesquisas. A margem de erro é representada pelo tamanho da circunferência de cada ponto (sobreposições indicam empate técnico).
O gráfico 3 (abaixo) é igual ao 2, com a diferença de que o método usado para calcular a linha de tendência é outro: um polinômio de ordem 2, ou seja, com apenas um vale/pico.
O gráfico 4 (abaixo) é idêntico ao anterior, com a única diferença de que a linha de tendência é calculada com um polinômio de ordem 3, ou seja, com dois vales/picos.
Estudo de Marcus Figueiredo sobre avaliação de pesquisas eleitorais
Estudo apresentado pelo professor Marcus Figueiredo (IUPERJ) durante Congresso da Abep (Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa) em 22 de março de 2010. Mostra o percentual de acerto das pesquisas eleitorais brasileiras e as compara com as norte-americanas. Apresenta ainda métodos de projeção dos resultados.
Todos os discursos de Lula em Israel (março/2010)
Lula falou muito de Brasil em Israel. “Brasil” foi a palavra mais usada pelo presidente nos oito pronunciamentos que fez durante a viagem, nada menos do que 84 vezes. Em segundo lugar, Lula usou mais frequentemente “Israel”: 59 vezes.
O lado comercial da viagem ficou patente pela quantidade de vezes que aparece a palavra “empresários” no discurso presidencial. Mais do que “paz”: 41 a 35 vezes cada uma.
Além de “Brasil” 84 vezes, Lula disse 26 vezes “brasileiros”. Clique na imagem abaixo para ver o contexto em que “Brasil” foi citado. Você pode trocar a palavra “Brasil” por outras citadas pelo presidente para entender seu contexto e contar as menções.
Making of
Para reproduzir esse levantamento, ou usar essa técnica para outras análises, crie uma conta no Manyeyes. É de graça. Depois, vá à fonte dos discursos que quer analisar e copie as íntegras. Neste caso, a fonte foi a Presidência da República. Junte tudo em um só documento de texto, selecione, copie e cole dentro do Manyeyes na seção “upload data sets”. Depois de criada a base de dados, clique em “visualize” para escolher a melhor forma de visualizar os dados. Neste caso, montei primeiro a “nuvem de palavras” para poder depois escolher as mais citadas na visualização tipo “word tree”.
Gráfico da corrida presidencial – todos os institutos – março 2010
O gráfico abaixo mostra que não devemos ignorar margens de erro ao analisar o desempenho dos candidatos. Reforça também que é mais importante olharmos as tendências do que as oscilações momentâneas. Como eu aponto no blog vox publica, no Estadão, as pesquisas do Ibope têm divergido das dos outros institutos no que se refere a José Serra. Um mostra o tucano estável, os demais apontam queda.
Apesar de os institutos usarem metodologias distintas, o fenômeno que eles medem, a intenção de voto do eleitor, é o mesmo. Logo, no longo prazo, todos devem mostrar a mesma coisa. Afinal, não é porque muda a marca do termômetro que a febre deve ser diferente.

A diferença entre Ibope e Datafolha no que se refere ao percentual de Serra está dentro da margem de erro: no Datafolha o tucano poderia ter entre 30% e 34%, enquanto no Ibope ele pode ter entre 33% e 37%. Além disso, as pesquisas foram feitas com cerca de dez dias de intervalo. O que importa são as tendências. Se isolarmos cada instituto, Serra apresenta queda no Datafolha e no Vox Populi. No Ibope, embora tenha oscilado sempre para baixo, a diferença percentual entre as pesquisas está dentro da margem de erro.
Abaixo, vê-se o mesmo gráfico, acrescido das linhas de tendência de cada candidato, calculada pela média móvel das últimas cinco pesquisas. Percebe-se a queda de Serra, o crescimento de Dilma Rousseff, a queda de Ciro Gomes e a estabilidade de Marina Silva.
Logo, ou Ibope está demorando para detectar uma queda de Serra, ou os demais institutos estão no limite inferior da oscilação do tucano, identificando uma queda maior do que a real. Não é possível ser categórico para apontar uma resposta a essa questão. Só as próximas pesquisas poderão dizer qual a tendência correta.
Comparação das intenções de votos de tucanos e petistas
O gráfico abaixo foi feito com as intenções de voto dos candidatos do PSDB e do PT, medidas pelo Datafolha, nos meses de março e maio dos anos em que houve eleições presidenciais polarizadas entre os dois partidos.
Abertas inscrições para curso de Introdução ao RAC
O Knight Center para o Jornalismo nas Américas abriu inscrições para meu próximo curso de Introdução à Reportagem com Auxílio do Computador (RAC).
Aqui você encontrará o formulário de inscrição para o processo seletivo.
Datas do curso: 12 de abril e 9 de maio, 2010.
Envie o formulário até o dia 28 de março às 22 horas (horário de Brasilia). Os participantes serão selecionados pelo Knight Center e notificados durante a semana do 7 de abril.
O curso trata de busca avançada na internet, uso de planilhas eletrônicas e de bancos de dados.
Gráfico de evolução da intenção de voto para presidente
O gráfico abaixo foi feito no “Numbers” da Apple. Os traços verticais junto às intenções de voto de cada candidato indicam a margem de erro. Quando as hastes de dois ou mais candidatos se superpõem é porque há empate técnico entre eles.
O gráfico reúne todas as pesquisas de intenção de voto estimulada divulgadas nos últimos meses. O objetivo é avaliar não apenas o desempenho dos candidatos, mas também comparar os institutos.
O gráfico tem uma imperfeição: a escala de tempo não mostra o intervalo entre as pesquisas na proporção correta. Isso ocorre porque o software, ao incluir o nome do instituto responsável junto com a data, considerou tudo como texto. Clique na imagem para aumentá-la.
Uma pauta eleitoral: analisar os discursos de campanha através dos comentários em blogs e redes sociais
À primeira vista é irritante: uma avalanche de comentários iracundos, de lado a lado, sobre qualquer coisa que diga respeito à eleição. Se for pesquisa de opinião, então, nem se fale. Mas o que parece um discurso destemperado pode ser de interesse dos jornalistas. Como muitos desses comentários são feitos por militantes, amadores ou profissionais, os discursos que eles propagam refletem uma orientação dos comandos de campanha.
Não estou dizendo que os “comentaristas” só escrevem o que o partido ou comitê mandam, mas eles assimilam os argumentos do seu lado do Fla-Flu, e estão bem preparados para rebater os dos adversários. A vantagem é que, preservados pelo anonimato, eles se sentem livres para dizer o que os políticos e especialmente os candidatos temem dizer. A propaganda sai sem filtros nem meias palavras. Tomemos alguns exemplos, tirados dos comentários em blogs políticos pela internet.
Do lado dos situacionistas, os comentários deixam claro que o ataque ao principal adversário visa três objetivos:
1) identificar José Serra (PSDB) com o governo FHC, para forçar uma comparação com o governo Lula;
2) identificá-lo com um suposto modelo econômico privatizante, que vendeu as estatais nacionais e estaduais e que resultou, por exemplo, em pedágios muito caros nas estradas paulitas (veja bem, caro leito, não concordo necessariamente com isso, mas é o que o discurso da propaganda, ora, propaga);
3) identificá-lo com os problemas urbanos da cidade de São Paulo, como trânsito e inundações, apelidando-o de Zé Alagão, e chamando seu sucessor na prefeitura, Gilberto Kassab, de “Pitta do Serra”.
Do outro lado, a propaganda não é menos virulenta. Os ataques a Dilma procuram:
1) identificá-la como suposta “terrorista”, “guerrilheira”, “assaltante de bancos” e por aí vai. O passado de Dilma Rousseff (PT) como presa política e militante de uma organização armada durante a ditadura é usado para propagar a ideia de que ela quereria a “volta do comunismo”, implantar um regime a la Hugo Chávez no Brasil e coisas do tipo. É um discurso que fomenta dois medos, em públicos distintos. Nos mais pobres, o do comunismo. Nos ditos “formadores de opinião”, o de uma ditadura da maioria, que cerceie as liberdades individuais, principalmente de imprensa.
2) associar o PT e políticos próximos à candidata a denúncias de corrupção, ressuscitando o mensalão e outros escândalos;
3) marcá-la como suposta “mentirosa”, dizendo que os programas que ela comanda no PAC são mera ilusão, que ela não é boa administradora como o governo tenta vender.
Os discursos descritos acima não precisam ser verdadeiros. Eles partem da máxima desgastada de que uma mentira repetida muitas vezes vira verdade. São propaganda, e devem assim ser analisados.
Para quem cobre eleição, é importante saber de cor os núcleos do discurso de cada candidato. Fica mais fácil identificá-los em entrevistas e pronunciamentos nos quais o tom é mais moderado, mas o conteúdo, mesmo que subjacente, é o mesmo.
A propaganda eleitoral visa exclusivamente a emoção, o lado direito do cérebro do eleitor. Ela pode ser travestida de um discurso aparentemente racional, mas seu objetivo é despertar medo, ódio, raiva ou simpatia, ternura, comoção. É o que os marqueteiros acreditam e vendem. É o que os políticos, sem admitir, compram. É o que os estudos científicos confirmam.
Estamos entre os poucos que parecem preocupados em transformar a eleição em um debate sobre propostas, em discutir fatos, em comparar objetivamente administrações, em analisar trajetórias políticas. Os jornalistas encaramos e cobrimos a eleição como se ela fosse um processo puramente racional. Não é.







