TOLEDOL, o blog sobre RAC

Reportagem com Auxílio do Computador (RAC) e jornalismo investigativo

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Uma pauta eleitoral: analisar os discursos de campanha através dos comentários em blogs e redes sociais

À primeira vista é irritante: uma avalanche de comentários iracundos, de lado a lado, sobre qualquer coisa que diga respeito à eleição. Se for pesquisa de opinião, então, nem se fale. Mas o que parece um discurso destemperado pode ser de interesse dos jornalistas. Como muitos desses comentários são feitos por militantes, amadores ou profissionais, os discursos que eles propagam refletem uma orientação dos comandos de campanha.

Não estou dizendo que os “comentaristas” só escrevem o que o partido ou comitê mandam, mas eles assimilam os argumentos do seu lado do Fla-Flu, e estão bem preparados para rebater os dos adversários. A vantagem é que, preservados pelo anonimato, eles se sentem livres para dizer o que os políticos e especialmente os candidatos temem dizer. A propaganda sai sem filtros nem meias palavras. Tomemos alguns exemplos, tirados dos comentários em blogs políticos pela internet.

Do lado dos situacionistas, os comentários deixam claro que o ataque ao principal adversário visa três objetivos:

1) identificar José Serra (PSDB) com o governo FHC, para forçar uma comparação com o governo Lula;

2) identificá-lo com um suposto modelo econômico privatizante, que vendeu as estatais nacionais e estaduais e que resultou, por exemplo, em pedágios muito caros nas estradas paulitas (veja bem, caro leito, não concordo necessariamente com isso, mas é o que o discurso da propaganda, ora, propaga);

3) identificá-lo com os problemas urbanos da cidade de São Paulo, como trânsito e inundações, apelidando-o de Zé Alagão, e chamando seu sucessor na prefeitura, Gilberto Kassab, de “Pitta do Serra”.

Do outro lado, a propaganda não é menos virulenta. Os ataques a Dilma procuram:

1) identificá-la como suposta “terrorista”, “guerrilheira”, “assaltante de bancos” e por aí vai. O passado de Dilma Rousseff (PT) como presa política e militante de uma organização armada durante a ditadura é usado para propagar a ideia de que ela quereria a “volta do comunismo”, implantar um regime a la Hugo Chávez no Brasil e coisas do tipo. É um discurso que fomenta dois medos, em públicos distintos. Nos mais pobres, o do comunismo. Nos ditos “formadores de opinião”, o de uma ditadura da maioria, que cerceie as liberdades individuais, principalmente de imprensa.

2) associar o PT e políticos próximos à candidata a denúncias de corrupção, ressuscitando o mensalão e outros escândalos;

3) marcá-la como suposta “mentirosa”, dizendo que os programas que ela comanda no PAC são mera ilusão, que ela não é boa administradora como o governo tenta vender.

Os discursos descritos acima não precisam ser verdadeiros. Eles partem da máxima desgastada de que uma mentira repetida muitas vezes vira verdade. São propaganda, e devem assim ser analisados.

Para quem cobre eleição, é importante saber de cor os núcleos do discurso de cada candidato. Fica mais fácil identificá-los em entrevistas e pronunciamentos nos quais o tom é mais moderado, mas o conteúdo, mesmo que subjacente, é o mesmo.

A propaganda eleitoral visa exclusivamente a emoção, o lado direito do cérebro do eleitor. Ela pode ser travestida de um discurso aparentemente racional, mas seu objetivo é despertar medo, ódio, raiva ou simpatia, ternura, comoção. É o que os marqueteiros acreditam e vendem. É o que os políticos, sem admitir, compram. É o que os estudos científicos confirmam.

Estamos entre os poucos que parecem preocupados em transformar a eleição em um debate sobre propostas, em discutir fatos, em comparar objetivamente administrações, em analisar trajetórias políticas. Os jornalistas encaramos e cobrimos a eleição como se ela fosse um processo puramente racional. Não é.

Escrito por Jose Roberto de Toledo

05/03/2010 em 3:45

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Concretismo barato

Se os dados são os tijolos, e a informação, a parede, o conhecimento é a casa. E a inteligência? É o cimento que dá a liga.

Para sobreviver, o jornalismo terá que deixar de ser pedreiro para se tornar incorporador imobiliário. Ninguém tem a fórmula, mas se tivesse que fazer uma aposta -e temos-, ficaria de olho nas experiências do New York Times. Cada vez menos um jornal e cada vez mais um “clube” destinado a produzir e distribuir conhecimento. Não apenas entre leitores ou assinantes, mas entre associados, que podem fazer tours pela redação, discutir seu vinho predileto com o crítico de gastronomia e fazer um curso ministrado por um ganhador do prêmio Pulitzer.

Não será só esse tipo de receita que vai tirar o NYT do buraco financeiro em que está enfiado, mas o uso da credibilidade da marca como canal de acesso a conhecimento e ilustração é um degrau a mais na tentativa de voltar ao equilíbrio financeiro. Após a pulverização das verbas publicitárias pela internet, não há mais uma fonte de recursos que, sozinha, possa dar conta dos gastos de um grande jornal. É preciso montar uma cesta ampla de receitas, que passa pela venda de conteúdo online, acesso aos bastidores do jornal, organização de cursos e seminários, análise e venda de relatórios sobre comportamento dos leitores e por aí vai.

O sucesso de festivais como a Flip (Feira Literária de Parati) e de escolas de cursos rápidos como a Casa do Saber é indicativo de que há um público de renda alta e disposição de aprender. Tudo indica, é o mesmo público que ainda assina jornais e compra revistas. Aproveitar o acesso a essas pessoas para oferecer mais oportunidades de conhecimento pode ser uma maneira de financiar o jornalismo.

A diversificação do conteúdo é, talvez, a saída comercial. A outra, é a institucional ou benemérita: são os fundos como Open Society Institute, ou doadores privados como Herbert Sandler, que sustentam cada vez mais centros de investigação jornalística independentes, como o ProPublica, nos EUA, ou o CIPER, no Chile. Por esse caminho, jornais como o New York Times poderiam vir a se tornar entidades sem fins de lucro, amparadas por doadores institucionais e fãs endinheirados.

Se o novo modelo de negócios experimental está longe de ser consolidado, o modelo de doações e financiamento voluntário enfrenta dois problemas: a limitação financeira e o fato de que tudo o que é voluntário pode deixar de ser de um dia para o outro.

A única certeza é que o binômio anúncios + assinaturas não sustenta mais ninguém. Os que se agarrarem a esse modelo superado vão sair do jornalismo para entrar na história.

Escrito por Jose Roberto de Toledo

26/08/2009 em 4:00

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A nova onda que promete sepultar o e-mail e o instant messenger

Google Wave. Lembre-se desse nome, porque ele vai mudar sua vida digital. É uma ferramenta ainda em fase de desenvolvimento que casa o e-mail com o instant messenger com um editor de texto colaborativo com um tradutor instantâneo com Google Maps com álbum de fotos online com o seu blog com o Twitter com o seu celular com… um monte de outras coisas bacanas.

A definição oficial é “sistema de comunicação pessoal e ferramenta de colaboração online”. Infelizmente é daqueles casos em que as palavras parecem insuficientes para descrever o fato. Como o Twitter, só vendo para entender as possibilidades. Dá para ter uma ideia assistindo a este vídeo no qual um dos pais do Google Wave, Lars Rasmussen (o criador do Google Maps), demostra algumas das originalidades de sua cria. Exemplos:

Você seleciona um ou mais destinatários, começa a escrever e, se quiser, as letras aparecem instantaneamente, uma a uma, na tela do(s) interlocutor(es);

Você e mais quatro ou cinco pessoas podem editar um mesmo texto online em tempo real e ver o que cada um está fazendo instantaneamente -isso significa não apenas mudar o texto, mas acrescentar imagens, fotos, mapas (imagine os impactos disso na edição de uma matéria jornalística, de uma página de web etc);

Em uma conversa coletiva, você pode chamar dois ou três pessoas num canto virtual e entabular uma conversa a três sem que os demais possam lê-la;

Em uma entrevista com um norte-americano via Google Wave você escreve em português e o texto aparece para ele em inglês, e vice-versa com as respostas.

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Em resumo, o Google Wave se propõe a ser sua única ferramenta de comunicação, concentrando tudo em uma só interface: e-mail, leitor de notícias online, editor de texto, MSN, ferramenta para postagem de mensagens no seu blog ou no seu Twitter, e por aí vai. Apesar de o produto ainda estar em fase de testes, com um grupo limitado de desenvolvedores, já há muita coisa sobre ele na internet, inclusive um suposto “guia completo”.

Outro ponto que aumenta a chance de o Google Wave se tornar um sucesso é que ele tem seu código aberto, o que permite a qualquer desenvolvedor de softwares e aplicativos criar complementos, adaptar sua interface, personalizar seu jeitão. Ferramentas para usar o novo aplicativo no celular também estão em fase avançada de testes, como se pode ver aqui.

Claro que o sucesso ou o fracasso da nova ferramenta vai depender de sua universalização e da velocidade de adoção pelos usuários. Como ele é essencialmente colaborativo, não adiantará muita coisa se apenas você tiver ele instalado no seu computador, mas seus amigos e colegas de trabalho não. O Twitter também passou por isso e deu no que deu.

Passa da hora de alguém sepultar o e-mail. Não apenas pela poluição do spam que entope seus canais e toma nosso tempo. Mas porque é uma tecnologia mais velha do que eu (a primeira mensagem é de 1965).

Escrito por Jose Roberto de Toledo

13/08/2009 em 4:43

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Números sim, numeralha não

Autora de Numbers in the Newsroom, a jornalista norte-americana Sarah Cohen sugere que você não escreva mais do que oito algarismos por parágrafo. E isso inclui os zeros de, por exemplo, R$ 8.556.000,00 (este é um mau exemplo porque tem nove algarismos).

Tampouco vale dividir os parágrafos em frases curtas cheias de números para burlar a regra. A meta por trás da sugestão é evitar transformar seu texto em uma tabela disfarçada. Os números são importantes, mas as palavras devem prevalecer nas sentenças, e as ideias e argumentos devem comandar os períodos em vez das cifras, sob risco de você espantar o leitor para a próxima notícia.

Difícil? Claro que isso vai depender do tema sobre o qual você está escrevendo. Mas há alguns truques que você pode lançar mão para facilitar essa tarefa.

  • Se possível, troque 50% por “a metade de”, use “um terço” em vez de “33%”, ou ainda “quatro em cada dez” no lugar de 40%.
  • Arredonde, sempre que isso não comprometer a precisão da informação: se o número for menor do que cinco, arredonde para baixo e vice-versa; se for igual a cinco, olhe para o algarismo anterior e replique a regra. Exemplo: o número citado no primeiro parágrafo poderia ser arredondado para R$ 8,6 milhões.
  • Quanto maior o número, mais arredondado ele pode ser.
  • Para a maioria dos leitores, detalhes numéricos atrapalham mais do que ajudam. Afinal, é mais fácil de memorizar que a Delta Construções recebeu R$ 370 milhões do governo federal no ano passado ou R$ 370.078.449,33 em 2008?
  • Selecione apenas os números que realmente importam.
  • Intercale frases, citações, tiradas entre parágrafos repletos de números (leia a reportagem de Gay Talese sobre Nova York a partir da pg 19 de Fama & Anonimato).
  • Ao descrever uma evolução numérica seja conciso. Prefira “o preço do tomate dobrou, para R$ 2/kg” a “o preço do tomate aumentou de R$ 1,00 para R$ 2,00 o quilo, o que representa um crescimento de 100%”.
  • Use, com parcimônia e evitando clichês, imagens para retratar números cujo significado é difícil de ser imaginado. Em vez de escrever apenas “a vazão do rio Amazonas é de 209 mil metros cúbicos por segundo”, prefira “o rio Amazonas levaria uma hora e vinte minutos para colocar o equivalente à área urbanizada de São Paulo sob um metro de água”.

Escrito por Jose Roberto de Toledo

07/08/2009 em 11:14

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Números por letras: técnicas para descrever estatísticas

Um dos melhores livros já escritos sobre técnicas de redação é o “Chicago Guide to Writing About Numbers”, de Jane Miller. A autora não é escritora, tampouco jornalista, mas dá aula sobre como fazer análises quantitativas pertinentes e, tão importante quanto, como apresentar os resultados de uma maneira que o leigo possa entender e compreender temas complexos. Ou seja, embora dirigido a profissionais que lidam com estatísticas em seu dia-a-dia, como médicos, pesquisadores e cientistas sociais, seu livro pode ser muito útil para jornalistas.

Prova disso é seu conselho para que o redator sempre contextualize seus dados com o que em inglês ela chama de W’s (Who, Where, When e What), e que em português poderia ser sintetizado em 3QO: Quem fez o que, quando e onde (ou “o que aconteceu com quem, quando e onde”). Parece um versão resumida dos elementos fundamentais do lide, não? “Sem eles (3QO)”, escreve Miller, “seu público não poderá interpretar os números e, provavelmente, assumirá que você está falando do tempo e lugar presente”. Tipo, a população do Brasil em 2009. Números ou estatísticas sem o 3QO são inúteis, arremata Miller.

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O risco, todavia, é transformar o texto em um relatório ilegível e repetitivo. Para evitar isso, a autora recomenda especificar o 3QO na primeira sentença, e redigir o resto do parágrafo assumindo que o contexto não mudou. Isso vale se você só citar novos números quando houver mudança do contexto. Eis o exemplo que ela dá:

“Quando a peste negra atingiu a Europa na segunda metade do século XIV, ela ceifou a vida de 25 milhões de pessoas. A doença matou cerca de um quarto da população europeia à época. Epidemias menores ocorreram entre 1300 e 1600″.

A primeira frase contém todos os elementos necessários para contextualizar os números. A segunda fornece uma comparação (25% da população) que permite ao leitor ter uma melhor ideia da magnitude do problema. Mas a última frase, apesar de especificar um novo período, não repetiu “o que” nem o “onde”, implicando que se tratavam de epidemias da mesma doença na Europa.

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Os conselhos de Miller, professora de métodos de pesquisa e estatística da Rudgers University, são increvelmente atuais para jornalistas brasileiros envolvidos na cobertura da mais recente pandemia viral.

Em um texto sobre a gripe H1N1, por exemplo, você vai querer fazer várias contextualizações que o levarão a repetir eventualmente o 3QO nos parágrafos seguintes, quando comparar as taxas de mortalidade da “suína” com a da gripe comum, ou a incidência e a letalidade da doença em diferentes regiões do país ou entre grupos etários, ou com outras epidemias de gripe em outras épocas. Nesse caso, convém apresentar um “benchmark”, uma medida de comparação, que ajude o leitor a entender a magnitude do problema. Afinal, por que tanto auê em torno da H1N1? É por que ela mata muito, por causa da sua abrangência?

Miller recomenda que, num texto assim, o autor discuta cada tópico em um parágrafo diferente, que deve começar com uma frase que explicite o propósito e o contexto da comparação. E aí inclua o 3QO.

Escrito por Jose Roberto de Toledo

04/08/2009 em 4:03

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O futuro dos jornais e jornalistas, segundo o editor da Wired

Chris Anderson, editor da Wired Magazine (revista dos EUA especializada em tecnologia), diz que só sobreviverão os jornais e jornalistas que agregam valor à internet. O interesse do público, diz ele, é muito local ou totalmente global. O que estiver no meio do caminho pode não ter futuro. Ou seja, pequenos jornais locais podem sobreviver se fizerem a melhor cobertura de sua comunidade, e o NYT deve sobreviver por causa de sua  cobertura sobre o mundo. Mas o San Francisco Chronicle, e sua cobertura da área da baia de São Francisco, pode ver seus dias chegarem ao fim.

A microcobertura, de seis quarteirões em torno da casa de cada um de nós, afirma Anderson, deve acabar nas mãos dos “amadores”, dos blogueiros, e haverá alguma solução tecnológica para agregar esse conteúdo e distribuí-lo.

Anderson também questiona se os jornalistas devem continuar fazendo o que sempre fizeram, como por exemplo ir às centenas para cobrir um mesmo evento (muitas vezes da mesma maneira).

Para quem compreende inglês, eis o link da entrevista dele dada na Los Angeles Public Library este mês, e veiculada pela Fora.TV.

Escrito por Jose Roberto de Toledo

29/07/2009 em 18:00

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