TOLEDOL, o blog sobre RAC

Reportagem com Auxílio do Computador (RAC) e jornalismo investigativo

Comparação das intenções de votos de tucanos e petistas

O gráfico abaixo foi feito com as intenções de voto dos candidatos do PSDB e do PT, medidas pelo Datafolha, nos meses de março e maio dos anos em que houve eleições presidenciais polarizadas entre os dois partidos.

Escrito por Jose Roberto de Toledo

16/03/2010 em 16:43

Abertas inscrições para curso de Introdução ao RAC

O Knight Center para o Jornalismo nas Américas abriu inscrições para meu próximo curso de Introdução à Reportagem com Auxílio do Computador (RAC).

Aqui você encontrará o formulário de inscrição para o processo seletivo.
Datas do curso: 12 de abril e 9 de maio, 2010.

Envie o formulário até o dia 28 de março às 22 horas (horário de Brasilia). Os participantes serão selecionados pelo Knight Center e notificados durante a semana do 7 de abril.

O curso trata de busca avançada na internet, uso de planilhas eletrônicas e de bancos de dados.

Escrito por Jose Roberto de Toledo

16/03/2010 em 15:35

Publicado em banco de dados

Gráfico de evolução da intenção de voto para presidente

O gráfico abaixo foi feito no “Numbers” da Apple. Os traços verticais junto às intenções de voto de cada candidato indicam a margem de erro. Quando as hastes de dois ou mais candidatos se superpõem é porque há empate técnico entre eles.

O gráfico reúne todas as pesquisas de intenção de voto estimulada divulgadas nos últimos meses. O objetivo é avaliar não apenas o desempenho dos candidatos, mas também comparar os institutos.

O gráfico tem uma imperfeição: a escala de tempo não mostra o intervalo entre as pesquisas na proporção correta. Isso ocorre porque o software, ao incluir o nome do instituto responsável junto com a data, considerou tudo como texto. Clique na imagem para aumentá-la.

Escrito por Jose Roberto de Toledo

13/03/2010 em 16:32

Uma pauta eleitoral: analisar os discursos de campanha através dos comentários em blogs e redes sociais

À primeira vista é irritante: uma avalanche de comentários iracundos, de lado a lado, sobre qualquer coisa que diga respeito à eleição. Se for pesquisa de opinião, então, nem se fale. Mas o que parece um discurso destemperado pode ser de interesse dos jornalistas. Como muitos desses comentários são feitos por militantes, amadores ou profissionais, os discursos que eles propagam refletem uma orientação dos comandos de campanha.

Não estou dizendo que os “comentaristas” só escrevem o que o partido ou comitê mandam, mas eles assimilam os argumentos do seu lado do Fla-Flu, e estão bem preparados para rebater os dos adversários. A vantagem é que, preservados pelo anonimato, eles se sentem livres para dizer o que os políticos e especialmente os candidatos temem dizer. A propaganda sai sem filtros nem meias palavras. Tomemos alguns exemplos, tirados dos comentários em blogs políticos pela internet.

Do lado dos situacionistas, os comentários deixam claro que o ataque ao principal adversário visa três objetivos:

1) identificar José Serra (PSDB) com o governo FHC, para forçar uma comparação com o governo Lula;

2) identificá-lo com um suposto modelo econômico privatizante, que vendeu as estatais nacionais e estaduais e que resultou, por exemplo, em pedágios muito caros nas estradas paulitas (veja bem, caro leito, não concordo necessariamente com isso, mas é o que o discurso da propaganda, ora, propaga);

3) identificá-lo com os problemas urbanos da cidade de São Paulo, como trânsito e inundações, apelidando-o de Zé Alagão, e chamando seu sucessor na prefeitura, Gilberto Kassab, de “Pitta do Serra”.

Do outro lado, a propaganda não é menos virulenta. Os ataques a Dilma procuram:

1) identificá-la como suposta “terrorista”, “guerrilheira”, “assaltante de bancos” e por aí vai. O passado de Dilma Rousseff (PT) como presa política e militante de uma organização armada durante a ditadura é usado para propagar a ideia de que ela quereria a “volta do comunismo”, implantar um regime a la Hugo Chávez no Brasil e coisas do tipo. É um discurso que fomenta dois medos, em públicos distintos. Nos mais pobres, o do comunismo. Nos ditos “formadores de opinião”, o de uma ditadura da maioria, que cerceie as liberdades individuais, principalmente de imprensa.

2) associar o PT e políticos próximos à candidata a denúncias de corrupção, ressuscitando o mensalão e outros escândalos;

3) marcá-la como suposta “mentirosa”, dizendo que os programas que ela comanda no PAC são mera ilusão, que ela não é boa administradora como o governo tenta vender.

Os discursos descritos acima não precisam ser verdadeiros. Eles partem da máxima desgastada de que uma mentira repetida muitas vezes vira verdade. São propaganda, e devem assim ser analisados.

Para quem cobre eleição, é importante saber de cor os núcleos do discurso de cada candidato. Fica mais fácil identificá-los em entrevistas e pronunciamentos nos quais o tom é mais moderado, mas o conteúdo, mesmo que subjacente, é o mesmo.

A propaganda eleitoral visa exclusivamente a emoção, o lado direito do cérebro do eleitor. Ela pode ser travestida de um discurso aparentemente racional, mas seu objetivo é despertar medo, ódio, raiva ou simpatia, ternura, comoção. É o que os marqueteiros acreditam e vendem. É o que os políticos, sem admitir, compram. É o que os estudos científicos confirmam.

Estamos entre os poucos que parecem preocupados em transformar a eleição em um debate sobre propostas, em discutir fatos, em comparar objetivamente administrações, em analisar trajetórias políticas. Os jornalistas encaramos e cobrimos a eleição como se ela fosse um processo puramente racional. Não é.

Escrito por Jose Roberto de Toledo

05/03/2010 em 3:45

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A internet e o ringue de vale-tudo eleitoral

Este blog anda meio sonolento devido à concorrência. Iniciei um blog sobre pesquisas eleitorais e outros números sobre a eleição no Estadão: Vox Publica. Ele tem me tomado mais tempo do que imaginava, especialmente para moderar centenas de comentários furiosos de todas as cores, matizes e orientações. Isso é normal e, de certo modo, esperado.

Mas me chamou a atenção para o papel de ringue de combate que a internet já está desempenhando na eleição. Não custa muito para partidos, lobbies e campanhas mobilizarem militantes e contratarem escribas para ocupar os espaços destinados ao debate político-eleitoral na web e nas ditas redes sociais. Analisando a origem dos comentários feitos em blogs, vê-se que há pessoas que gastam tanto tempo escrevendo que é difícil imaginar que tenham outra ocupação que não essa.

Outros assumem múltiplas personalidades que elogiam-se a si próprias. Presenciei um caso curioso: sem perceber que os comentários eram moderados, e que portanto a publicação pode demorar, um dos internautas elogiou um comentário de outra sua persona que ainda não havia ido ao ar… Ao perceber a gafe, me acusou de ter supostamente retirado-os do blog.

O conteúdo dos comentários também mostra que boa parte dos reincidentes privilegia o discurso agressivo, quando não calunioso. Claro que isso se explica pelo conforto do anonimato que a internet proporciona. Mas também é o canal por onde campanhas podem desaguar as acusações que não ficariam bem na boca do candidato e, às vezes, nem da de suas linhas auxiliares.

Já fiz um pouco de tudo no jornalismo, mas é a primeira vez que me vejo no papel de juiz de vale-tudo.

Escrito por Jose Roberto de Toledo

22/02/2010 em 13:49

Como o Google Earth pode ajudar numa cobertura

O Google Eye atualizou as imagens de satélite após o terremoto devastador no Haiti. Com a ajuda do Google Earth, é possível comparar as imagens antes e depois do desastre. O resultado é chocante, pois mostra a extensão do estrago na capital do país. Com apenas um clique, o usuário alterna entre a imagem de como era e o que restou da cidade. Mostra ainda que há bairros muito mais atingidos do que outros.

Para ver, clique aqui para baixar o arquivo. Se já tiver o Google Earth instalado no seu computador, basta dar um duplo clique no arquivo que acaba de baixar que ele vai abrir no programa. Aí, no menu do lado esquerdo você verá um item chamado “Haiti Earthquake”. Se a caixinha ao lado desse nome estiver marcada, você estará vendo as imagens pós-terremoto. Se não, a cena de como era antes do desastre. Use os comandos do programa para dar zoom e aproximar as imagens.

Abaixo, alguns exemplos de antes e depois do terremoto:

1) Área da alfândega de Port-au-Prince

Antes

Depois

2) Área do Palácio Presidencial

Antes

Depois

3) Área da Catedral

Antes

Depois

Escrito por Jose Roberto de Toledo

14/01/2010 em 19:28

O beabá da probabilidade e da estatística – 1

Para os jornalistas, o melhor jeito de aprender sobre um assunto é escrever sobre ele. Assim, o que se segue é uma aula do ponto de vista do aluno, não do professor. São anotações de quem pretende fixar conceitos, não ensiná-los. Foram inspiradas, na maioria, pela leitura de “O Andar do Bêbado“, de Leonard Mlodinow. Leia-as como quem espia o caderno do colega de escola.

Os jornalistas precisamos estar cientes de que não estamos propensos a relatar fatos objetivos com imparcialidade. Somos naturalmente parciais, nossa percepção é incompleta, e o fato, quando captado pela nossa mente, torna-se uma interpretação. Mesmo uma cena da qual somos testemunhas oculares é subjetiva. É o resultado de uma série de interpolações feitas pelo nosso cérebro para aprimorar a imagem falha e borrada enviada pelos olhos. Desenvolvemos mecanismos cerebrais que agem como Photoshop sobre uma foto desfocada e mal-enquadrada. Somem-se nossos preconceitos e expectativas, e o resultado é pra lá de subjetivo.

Só estando conscientes desses nossos defeitos de origem é que podemos fazer bem o ofício de reportar. Ser cético e duvidar não é mérito, mas necessidade. Como uma colagem, cada versão se completa na outra, superpostas e contraditórias. Daí que quanto mais versões e observações, melhor. Não me refiro apenas a entrevistas, mas a grandes quantidades de informação. A uma amostra que represente com fidelidade o universo que espelha. Isso implica dominar conceitos lógicos e matemáticos simples, mas essenciais.

Para diminuir a margem de erro do nosso trabalho, convém conhecermos o beabá da estatística e da probabilidade. A diferença entre eles? Nas palavras de Mlodinow: a estatística busca inferir as probabilidades com base em medições dos dados, enquanto a probabilidade faz previsões com base em probabilidades fixas.

Começo aqui uma série sobre esses dois assuntos.

. . .

1) A probabilidade de um evento “X” ocorrer é igual à proporção entre o número de eventos “X” e o número total de eventos, desde que todos eles sejam aleatórios.

Exemplo banal: a probabilidade de dar “cara” em um cara-ou-coroa é de 50%, porque há um evento “cara” entre os dois eventos possíveis: “cara” e “coroa”. Logo, a proporção é de 1 para 2, ou 1/2, ou 50%.

Exemplo nem tão banal: desconsideradas as paixões, a arbitragem e a habilidade, a chance de um time de futebol vencer as duas partidas que faltam para o fim do campeonato é de aproximadamente 11%, porque “vencer e vencer” é apenas uma de nove possibilidades: “vencer e vencer”, “vencer e empatar”, “vencer e perder”, “perder e vencer”, “perder e perder”, “perder e empatar”, “empatar e vencer”, “empatar e empatar” e “empatar e perder”. Logo, a proporção é de 1 para 9, ou 1/9 ou 11,11%.

O exemplo acima é hipotético, e não se aplica na vida real, pois jogos de futebol não são eventos totalmente aleatórios (embora sejam mais casuais do que os comentaristas esportivos fazem parecer). Para ilustrar como a ordem dos fatores influencia o cálculo da probabilidade, tomemos o jogo de gamão.

A chance de somarmos 12 ao lançarmos dois dados simultaneamente é igual à de somarmos 2, certo? Sim, porque só há uma combinação possível para 12 (6 e 6) e outra para 2 (1 e 1). E qual a probabilidade de somarmos 7? É bem maior, porque há seis combinações possíveis dos dados que somariam esse resultado: 1 e 6, 2 e 5, 3 e 4, 4 e 3, 5 e 2, 6 e 1. E quantas combinações diferentes são possíveis em um lance dos dois dados? A resposta é 36. Chega-se a ela elevando-se à potência os resultados possíveis de cada dado. No caso, 6², porque são seis lados de dois dados (se fossem 3 dados, os resultados possíveis seriam 6³ = 216).

Logo, as chances de somarmos 7 no lance de dois dados é de 6 em 36, ou 6/36 = 16,7%. Contra apenas 1 em 36 (2,8%) de somarmos 12 ou 2. Portanto, você terá seis vezes mais chances de ganhar se precisar de um resultado 7 do que um 12 ou um 2.

No caso do campeonato de futebol que está a dois jogos do fim, o total de combinações possíveis de resultados para o time A era 9 porque eram 3 resultados possíveis (vencer, empatar ou perder) em duas rodadas. Se fossem 3 rodadas restantes, as possibilidades se multiplicariam para 27 (3³). Nessa hipótese, se o time A precisasse somar pelo menos seis pontos para não ser rebaixado, quais suas chances de permanecer na 1ª divisão?

Nesse caso, interessariam apenas os cenários com duas (2 x 3 pontos = 6 pontos) ou três (3 x 3 pontos = 9 pontos) vitórias para o time A. Quantas combinações de resultados das três partidas restantes contemplam essas possibilidades? A resposta é sete (“vencer, vencer e vencer”; “vencer, vencer, empatar”, “vencer, vencer, perder”; ”vencer, empatar, vencer”; ”vencer, perder, vencer”; “empatar, vencer, vencer”; “perder, vencer, vencer”). Logo, as chances de não ser rebaixado seriam de 7 em 27, ou cerca de 26%.

Dominar esse conceito é fundamental para se ir adiante na compreensão da probabilidade. Nele se baseiam todas as outras leis probabilísticas. Como veremos nos próximos posts.

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Escrito por Jose Roberto de Toledo

10/12/2009 em 19:56

10 anos depois, de volta ao impresso (mas com pé na web)

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Comecei hoje a contribuir com o Estadão. Dez anos após deixar a Folha, volto ao jornalismo impresso e diário. Mas mantenho um pé na web, para onde migrei, junto com a torcida do Corinthians, em 2000. A contribuição para o Estadão é temática: escreverei sobre pesquisas e as eleições de 2010, tanto para o jornal de papel quanto para sua versão on-line. O primeiro texto “impresso” é este aqui. Tomando a 99ª pesquisa CNT/Sensus como gancho, analiso o comportamento do eleitorado e as chances dos candidatos.

Durante o período de colaboração para o Estadão, procurarei manter este blog atualizado na medida da minha disponibilidade de tempo. Pretendo não misturar os assuntos. Lá o conteúdo, e aqui, quando for pertinente, o “making of”.

Assim, eis algumas dicas sobre análise de pesquisa eleitoral:

1) Não se perca no mar de números, tente enxergar as grandes tendências. Elas são mais importantes do que as pequenas oscilações.

2) Use sempre a margem de erro, não apenas quando ela lhe convém. É fato: quando somamos a margem de erro de uma pesquisa com a da anterior, raramente há uma oscilação que possa ser considerada estatisticamente significativa. Se a margem for de dois pontos, ela precisa superar quatro pontos para poder se falar em alta ou queda. A margem de erro é proporcional ao tamanho da amostra (mas o tamanho da amostra não é proporcional ao tamanho do universo pesquisado).

3) A terceira dica é para ajudar a cumprir a segunda. Como é difícil haver notícia de uma pesquisa para outra, é mais proveitoso buscar tendências com pelo menos três pontos com a mesma direção na curva. Por exemplo: o candidato A oscila de 10% para 12% e em seguida para 15%, em três pesquisas consecutivas. Apesar de as variações de uma pesquisa para outra terem ocorrido dentro da margem de erro, pode-se falar em uma tendência de crescimento, porque a soma das variações supera a soma da margem de erro (de dois pontos, no caso). Isso só vale se não houver nenhuma variação em sentido oposto entre as pesquisas analisadas.

4) Sempre preste atenção na pesquisa espontânea, principalmente nas fases iniciais da campanha eleitoral. Ela tende a ser mais significativa do que a estimulada quando os percentuais de não sabe/não respondeu/branco/nulo somados superam 50%. É sinal de que o eleitor ainda não está preocupado com o assunto que lhe é proposto pela pesquisa. Nesses casos, as intenções de voto sinalizam mais um recall (memória) do que um propósito firme de sufragar aquele candidato.

5) Compare, tudo e todos: intenção de voto com avaliação do governante, pesquisas diferentes, eleições passadas e presentes, eleitores ricos e pobres, eleitoras e eleitores, jovens e velhos. Procure padrões de comportamento. Eles são mais importantes que as exceções.

6) Sempre leia o questionário original da pesquisa e confira a sequência das perguntas. A ordem das questões altera o produto: após responder a uma questão que obriga-o a emitir um juízo de valor sobre um dos candidatos o eleitor estará propício a manter esse juízo na hora de indicar sua intenção de voto. Se falou mal, dificilmente admitirá a possibilidade de votar nele.

7) Divulgue a metodologia da pesquisa: número de entrevistas, universo a que diz respeito a amostra, margem de erro, universo de confiança, data de campo da pesquisa, quem contratou a pesquisa e tudo o mais que possa influenciar os resultados.

8 ) Não compare diretamente resultados de cenários eleitorais diferentes. Se na pesquisa anterior havia mais candidatos ou eles não eram exatamente os mesmos da pesquisa mais recente, não se pode dizer que um candidato tenha caído ou subido de uma pesquisa para outra. As intenções de voto são sempre relativas, nunca absolutas. Elas dependem de quem está no páreo. Se os cavalos mudam, mudam também os resultados.

9) Lembre-se: enquetes feitas pela internet ou pesquisas feitas pelo telefone no Brasil não representam o total do eleitorado, porque nem todos os eleitores têm acesso a esses meios de comunicação. Além disso, não há controle rígido sobre a amostra de respondentes, e os mais interessados tendem a participar mais, distorcendo o resultado. Amostra boa é uma amostra que represente corretamente o universo pesquisado. Uma amostra estatisticamente controlada com duas mil entrevistas em todo o Brasil vale mais do que uma amostra com 100 mil respostas feita pela internet.

10) Mesmo as pesquisas científicas, baseadas em critérios estatísticos rígidos, estão sujeitas a um certo grau de incerteza e imprecisão. Uma pesquisa com margem de erro máxima de 3 pontos percentuais e intervalo de confiança de 95% indica que em 95 de cada 100 pesquisas feitas, a intenção de voto de um candidato que tem metade do eleitorado ficará entre 47% e 53%. Nas outras cinco, o erro será maior do que esse. Assim sendo, pequenas oscilações só devem ser vistas como sinal de mudança do eleitorado se forem constantes. Tampouco me parece relevante usar casa decimal depois da vírgula para tratar de intenção de voto. No texto do Estadão, arredondei todos os valores divulgados pelo Sensus.

Escrito por Jose Roberto de Toledo

24/11/2009 em 0:15

A noite em claro do Twitter

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O apagão de 10 de novembro foi muito semelhante ao de dez anos antes, tanto na extensão do estrago quanto na falta de clareza das explicações de suas causas. Mas a maneira como muitas pessoas se informaram e trocaram informações sobre o problema foi essencialmente diferente. Sem TV nem desktop, uma multidão se voltou ao celular e especialmente ao Twitter para saber o que estava acontecendo. E descobriu, em instantes, que o problema ultrapassava as fronteiras de sua casa, bairro, cidade, estado e país.

O Twitter já tinha dado mostras de ser uma ferramenta útil de informação quando explodiu a loja de fogos de artifício no ABC paulista, ou durante o tiroteio em Fort Hood (EUA). Mas o apagão (ou #apagao, como ficou conhecido) foi o primeiro evento de dimensões nacionais (e com repercussão internacional) a transformar o microblog em ferramenta primordial de informação no Brasil. Tuitei de madrugada “O Twitter foi a lanterna noticiosa do #apagao: mais ágil e até mais preciso do que muitos meios tradicionais”. A seguir explico as razões.

Em primeiro lugar, o Twitter não apagou. Parece pouco, mas, em uma emergência, isso faz toda a diferença. Enquanto a TV era inútil para quem estava no escuro, a rede de dados via celular ficou de pé na maioria dos lugares. Sites e portais noticiosos como G1 e globo.com saíram do ar e tiveram que operar pelo… Twitter. (Será que faltou a redundância de equipamentos que cobravam das redes de transmissão de energia?)

O segundo motivo é que o decantado crowdsourcing funcionou como nos manuais. Imediatamente as pessoas começaram a informar que na sua cidade ou bairro faltava energia, ou que ela havia piscado mas retornara. Com isso, como fez o site do Estadão, foi possível mapear por fontes independentes e corroboráveis a extensão do apagão. A terceira razão é consequência dessa.

Sabendo-se até onde chegava ou não o blackout, era possível deduzir a origem. Como apagou o Sudeste mas não o Sul, era provável que a sequência de eventos tivesse começado em Itaipu ou nos linhões de transmissão que lá se originam. A confirmação veio pelo próprio Twitter, através de um post da jornalista paraguaia Mabel RahnFeldt . Ela informava que a luz fora cortada mas retornara 15 minutos depois no seu país. Como Itaipu é o único ponto em comum entre os sistemas elétricos do Brasil e Paraguai, o apagão tinha que estar relacionado à hidrelétrica.

A quarta razão é que, como provou a própria Itaipu durante o evento, o Twitter se transformou sim em fonte primária de informação. Menos de uma hora depois do início do blackout, a direção da hidrelética criou a conta @usina_itaipiu no Twitter e passou a dar sua versão dos fatos. Em resumo, seus posts explicavam que o problema fora de Furnas, em uma das linhas de transmissão abastecidas por Itaipu, e que, como efeito reverso, pela primeira vez na sua história as 20 turbinas da usina foram todas desligadas, embora logo tenham voltado a funcionar parcialmente. A versão batia com a de outras fontes: se o problema original fosse na usina, a energia não teria logo voltado no Paraguai, ou teria acabado em Foz do Iguaçu (PR).

Em quinto lugar, o Twitter virou ferramenta de trabalho para os jornalistas, ao menos para aqueles que não estavam no escuro e ainda tinham um meio de comunicação comunicando. Fazendo busca pelas hashtags #apagao e #itaipu era possível ter o melhor panorama de onde a energia acabara, onde piscara e onde já tinha voltado e quando. Cidade a cidade, bairro a bairro. Imagens do apagão também eram publicadas em blogs e tuitadas, ajudando jornalistas a ilustrarem suas matérias. Como a que se vê abaixo, do site http://www.fotas.com.br/.

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Avenida Sumaré, em São Paulo, durante o apagão de 10 de novembro de 2010

Os exemplos de uso do Twitter por jornalistas durante a cobertura não se esgotam aí. Em São Paulo, a rádio Jovem Pan conseguiu entrevistar o governador José Serra fazendo contato pelo Twitter (ele próprio usou a ferramenta para dizer seu governo estava fazendo). No Rio Grande do Sul, a rádio gaúcha fez uma elogiada cobertura do apagão noite a dentro . A apresentadora Sara Bodowsky relata como o microblog a ajudou:

“Usei meu Twitter pessoal como verdadeira “clipagem” das notícias sobre o apagão. Agências como G1 e Época estavam fora do ar nos seus sites por problemas no servidor e atualizavam as notícias através do Twitter. Ao mesmo tempo, os ouvintes da Rádio Gaúcha (que durante a madrugada chega em São Paulo e Rio de Janeiro) traziam relatos sobre a situação das suas cidades. Uso o Twitter através de um programa de atualização constante. Isso permitiu que às duas da manhã, enquanto entrevistava ao vivo o diretor de Itaipu, Jorge Samek, usasse as notícias que chegavam em tempo real como apoio para a entrevista.”

O Twitter foi a lanterna noticiosa do apagão, mas continua sendo uma ferramenta. Como um garfo, pode ser usado para você se alimentar ou para espetar alguém. Depende de quem o usa e como. Houve é claro quem transmitisse boatos e notícias falsas (“energia só vai voltar em três dias”). Mas foram a exceção e não a regra.

Como ferramenta de comunicação direta, o Twitter tende a acabar com o mero intermediário, o atravessador da informação. Se Itaipu informa diretamente sua versão, para que o público precisa de um jornalista? Para contar todas as versões, para checá-las, para ver se batem com os fatos, para organizar informações dispersas, para contextualizá-la. Em resumo, para investigar. É isso que nos resta.

Escrito por Jose Roberto de Toledo

11/11/2009 em 11:56

Perguntar, confirmar e avisar: os limites com a fonte

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O jornalista Maurício Stycer levantou uma interessante questão em seu blog sobre até onde o jornalista deve ir quando o entrevistado fala uma bobagem. Devemos repetir a pergunta? Devemos confirmar o que ouvimos? Ou devemos avisar que ele disse uma besteira e que vamos publicá-la?

Difícil imaginar uma regra que se aplique automaticamente a todas as situações. Stycer elogia no seu blog o repórter Thiago Salata, do “Lance!”, que avisou o presidente do Palmeiras que iria publicar tudo o que ele estava dizendo (Belluzzo acusara um árbitro de “estar na gaveta”). Concordo com o elogio, mas nem sempre o aviso é possível. Recordo uma situação em que o aviso teria sido prejudicial à reportagem:

Eu cobria a Fiesp para a Folha de S.Paulo. O presidente era Mario Amato. Certo fim de tarde, ele conversava com meia-dúzia de jornalistas no restaurante da entidade quando foi interrompido por uma chamada telefônica. Ao voltar à roda, desculpou-se dizendo que precisou atender porque era a ministra do Trabalho, Dorothea Werneck. Como havia repórteres do sexo feminino na rodinha, Amato gracejou: “Ela é muito inteligente, apesar de ser mulher”.

Fiquei quieto. Voltei à redação, escrevi a matéria com a “boutade” do presidente da Fiesp e a editora de Economia Eleonora de Lucena levou a expressão ao título da matéria. Foi uma crise, mas, apesar de os outros jornais não terem publicado a frase, Amato não teve como desmentir. A história chegou ao ponto de Dorothea, anos depois, escrever um livro cujo título era… “Apesar de ser mulher”.

Se, na hora da entrevista, eu tivesse avisado Amato que ele tinha dito uma bobagem, ele teria se desdito automaticamente e os outros repórteres talvez tivessem publicado a história também.

Mas é um episódio a partir do qual não se pode tirar uma regra. Leia as respostas de outros jornalistas à questão feita por Stycer no Twitter. Elas dão uma ideia de quão distintas podem ser as abordagens nesse caso:

@mauriciostycer Amigos jornalistas, o repórter deve avisar ao entrevistado que ele está falando besteira?

@zerotoledo Boa questão. Eu só avisaria que ia publicar a besteira dita se não tivesse gravado e temesse q o entrevistado voltasse atrás

@profwillians Sim, mas se todo jornalista fizer isso, vai ter muita gente que nunca mais vai dar entrevista, pois só falam asneiras.

@MSavarese Creio que há outras maneiras de dizer isso. Algo como: “O senhor não teme a repercussão disso que está dizendo agora?”

@porcopedia Por que vocês, vestais, não falam a mesma coisa quando os jornali$tas é que falam besteira ?

@Cardoso pq você quer banir os ex-BBB de dar entrevista?

@eduloureiro Pela resposta de Belluzzo ao @JucaKfouri , não foi bem uma besteira // @mauriciostycer Eu deveria ter colocado “besteira” entre aspas.

@fchiorino Repórter avisa que está gravando. Aí o resto é por conta e risco do entrevistado

@estadodecirco Belluzzo, pessoa (supostamente) preparada, cinco horas após o ocorrido, precisa de alerta? Não acho.

@eduloureiro Em tempo: protocolarmente, acho que o único aviso necessário é: estamos gravando.

@Jugranjeia Futebol é tão podre quanto a política. Não existem pessoas ingênuas nesses meios. Mas acho q @ThiagoSalata foi profissional.

Escrito por Jose Roberto de Toledo

09/11/2009 em 10:34

Publicado em Jornalismo Investigativo

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