TOLEDOL, o blog sobre RAC

Reportagem com Auxílio do Computador (RAC) e jornalismo investigativo

Se até o Gay Talese faz…

O próximo livro do jornalista Gay Talese será uma reportagem sobre seu próprio casamento. Até aí é apenas inusitado, embora em se tratando do deus vivo do jornalismo literário possamos apostar que valerá a leitura. O jornalista está, provavelmente, usando seu casamento como exemplo para contar a história das transformações das relações pessoais nos EUA no último meio século. Mas isso é tema para críticos. O que justifica a publicação desta história neste blog é o método que Talese está usando para escrever o livro: escrutinando um banco de dados.

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Não é qualquer BD. É o BD que ele montou ao longo dos últimos 50 anos com tudo que diz respeito ao seu casamento: do relato de cada briga ao registro de cada conta de luz, passando pelas experiências extraconjugais de ambas as partes.

Não cabe aqui a polêmica sobre se isso é ou não uma exposição indevida de sua vida privada e da de sua família. Interessa, neste espaço, que Talese tenha se preocupado em guardar todos esses pedacinhos de história de forma a poder recuperá-los depois. Que tenha montado um arquivo de algo tão banal quanto o dia-a-dia da vida de casado. Será que ele já previra, 50 anos atrás, que viria a escrever esse livro-reportagem sobre o próprio casamento? Improvável. Deve ter começado a guardar por não saber prever se um dia poderia usar ou não esse material jornalisticamente. Na dúvida…

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Isso nos remete a outro jornalista de primeiro time. Elio Gaspari é um aficcionado dos arquivos e bancos de dados. Mantém um apartamento apenas para abrigar o arquivo que herdou do general Golbery do Couto e Silva sobre os atos da ditadura. Além disso, alimenta diariamente dois bancos de dados eletrônicos (ele usa um software chamado FileMaker). Num, põe todas suas entrevistas, conversas em off, leituras de jornais, revistas e de tudo o que achar relevante. Já beira as 100 mil fichas. Noutro está todo o material de sua pesquisa sobre a ditadura militar e que resultou na publicação de quatro livros inescapáveis sobre o tema.

Qual a semelhança entre Talese e Gaspari, afora a profissão e a origem italiana? Ambos sabem e praticam o segredo de uma boa narrativa: os detalhes que conferem precisão, sabor e cheiro à história. Se você não estiver escrevendo ficção, vai precisar de um belo arquivo ao qual recorrer para fornecer esses detalhes. Ele vai propiciar sinapses que sua memória não é capaz de fazer sozinha. Vai ligar pontos que pareciam distantes. Como diria Gisele Bundchen: só tem quem guarda.

Logo, se Gay Talese e Elio Gaspari se preocupam em montar bancos de dados para melhorar seu trabalho, por que raios você acha que não precisa?

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Written by Jose Roberto de Toledo

17/07/2009 às 17:19

Publicado em banco de dados

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