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Reportagem com Auxílio do Computador (RAC) e jornalismo investigativo

Números por letras: técnicas para descrever estatísticas

Um dos melhores livros já escritos sobre técnicas de redação é o “Chicago Guide to Writing About Numbers”, de Jane Miller. A autora não é escritora, tampouco jornalista, mas dá aula sobre como fazer análises quantitativas pertinentes e, tão importante quanto, como apresentar os resultados de uma maneira que o leigo possa entender e compreender temas complexos. Ou seja, embora dirigido a profissionais que lidam com estatísticas em seu dia-a-dia, como médicos, pesquisadores e cientistas sociais, seu livro pode ser muito útil para jornalistas.

Prova disso é seu conselho para que o redator sempre contextualize seus dados com o que em inglês ela chama de W’s (Who, Where, When e What), e que em português poderia ser sintetizado em 3QO: Quem fez o que, quando e onde (ou “o que aconteceu com quem, quando e onde”). Parece um versão resumida dos elementos fundamentais do lide, não? “Sem eles (3QO)”, escreve Miller, “seu público não poderá interpretar os números e, provavelmente, assumirá que você está falando do tempo e lugar presente”. Tipo, a população do Brasil em 2009. Números ou estatísticas sem o 3QO são inúteis, arremata Miller.

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O risco, todavia, é transformar o texto em um relatório ilegível e repetitivo. Para evitar isso, a autora recomenda especificar o 3QO na primeira sentença, e redigir o resto do parágrafo assumindo que o contexto não mudou. Isso vale se você só citar novos números quando houver mudança do contexto. Eis o exemplo que ela dá:

“Quando a peste negra atingiu a Europa na segunda metade do século XIV, ela ceifou a vida de 25 milhões de pessoas. A doença matou cerca de um quarto da população europeia à época. Epidemias menores ocorreram entre 1300 e 1600”.

A primeira frase contém todos os elementos necessários para contextualizar os números. A segunda fornece uma comparação (25% da população) que permite ao leitor ter uma melhor ideia da magnitude do problema. Mas a última frase, apesar de especificar um novo período, não repetiu “o que” nem o “onde”, implicando que se tratavam de epidemias da mesma doença na Europa.

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Os conselhos de Miller, professora de métodos de pesquisa e estatística da Rudgers University, são increvelmente atuais para jornalistas brasileiros envolvidos na cobertura da mais recente pandemia viral.

Em um texto sobre a gripe H1N1, por exemplo, você vai querer fazer várias contextualizações que o levarão a repetir eventualmente o 3QO nos parágrafos seguintes, quando comparar as taxas de mortalidade da “suína” com a da gripe comum, ou a incidência e a letalidade da doença em diferentes regiões do país ou entre grupos etários, ou com outras epidemias de gripe em outras épocas. Nesse caso, convém apresentar um “benchmark”, uma medida de comparação, que ajude o leitor a entender a magnitude do problema. Afinal, por que tanto auê em torno da H1N1? É por que ela mata muito, por causa da sua abrangência?

Miller recomenda que, num texto assim, o autor discuta cada tópico em um parágrafo diferente, que deve começar com uma frase que explicite o propósito e o contexto da comparação. E aí inclua o 3QO.

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Written by Jose Roberto de Toledo

04/08/2009 às 4:03

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