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Reportagem com Auxílio do Computador (RAC) e jornalismo investigativo

Crise atrapalha, sim, a diminuição da pobreza

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) do governo federal divulgou estudo nesta terça mostrando o que aconteceu com a pobreza e com a desigualdade de renda no Brasil após a crise financeira. Em seu site e no texto de introdução ao estudo, o Ipea foi arrojado nas conclusões: “País reduziu pobreza e desigualdade mesmo durante a crise”, foi o título. A divulgação foi transparente, em tempo real pela internet, com a participação do presidente do instituto, o respeitável economista Marcio Pochmann.

Há uma imprecisão, porém, que se percebe de cara. O estudo, como está explicitado pelo próprio Ipea, é baseado na Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE, que se limita a seis regiões metropolitanas. O próprio nome do estudo é “Desigualdade e Pobreza no Brasil Metropolitano”. Não se pode expandir, portanto, seus resultados para todo o país. Mas o problema não ficou nisso.

Os sites de notícias, premidos pelo tempo e pela ideia de que é melhor dar antes do que dar melhor, compraram o estudo do jeito que foi vendido e estamparam manchetes como “Pobreza e desigualdade caem mesmo durante a crise, diz Ipea”. À noite, após analisar o estudo com calma, o Jornal Nacional foi mais cauteloso, e fez uma necessária diferenciação entre a queda significativa e constante da desigualdade medida pelo índice de Gini, e a taxa de pobreza, que oscilou para cima e para baixo nos meses de crise, sem definir uma tendência clara.

Os números frios

Quando trata da desigualdade, o relatório do Ipea é rico em dados. Começa plasmando a tendência de longo prazo, o que é sempre bom: entre dezembro de 2002 (pico) e junho deste ano o índice de Gini médio das seis metrópoles caiu 9,5%, ao patamar mais baixo já registrado, 0,493 (se fosse zero, equivaleria a que todos ganhassem exatamente o mesmo valor).

E no curto prazo, de janeiro a junho de 2009, a queda no Gini foi a maior verificada desde 2002: 4,1%. Para fechar bem a explicação, o gráfico ilustrativo evidenciava que, a despeito de a desigualdade ter patinado ao longo de 2008 e ter dado um salto entre dezembro e janeiro, de lá para cá ela retomou a tendência de queda verificada desde o começo do governo Lula, o que deve-se em grande parte às políticas de distribuição de renda para os mais pobres. Até aqui, tudo bem.

O tropeço do relatório está no tópico sobre a diminuição da pobreza. Não se repete a mesma abundância de dados, o gráfico ilustrativo mostra que já houve momentos de pobreza menor do que o atual, e os recortes destacados no texto tentam provar uma tese, mais do que revelar todas as ambiguidades do processo.

No longo prazo, não resta dúvida, o percentual de moradores das metrópoles vivendo abaixo da linha da pobreza de meio salário mínimo per capita foi reduzido em um quarto: de 42,5% em março de 2002 para 31,1% em junho passado. Para o Ipea, essa queda está dividida em duas etapas, uma mais rápida, no começo, e outro mais lenta, a partir de janeiro de 2007.

Porém o relatório cala sobre o período mais recente e os efeitos da crise financeira global sobre a pobreza nas metrópoles brasileiras. Foi necessário a repórter Gisele Lobato pedir -e receber rapidamente, registre-se- a série mensal completa ao Ipea para que fosse possível analisar os dados nos últimos meses.

Em junho do ano passado iniciou-se uma nova queda no percentual de pobres, que durou até dezembro, quando bateu em 30,1%, o valor mais baixo da série histórica. Nesse período, cerca de 1 milhão de pessoas (o equivalente a 2,2 pontos percentuais) venceram a linha da pobreza. Porém aí os efeitos da crise se fizeram sentir, e o percentual voltou a subir até chegar a 31,6% em maio, e recuar para 31,1% em junho.

É preciso esperar que os dados de julho e agosto apontem na mesma direção para confirmar-se uma nova tendência de curto prazo rumo a uma menor taxa de pobreza. Por ora o movimento é errático. Comparando-se apenas o número de junho de 2009 com o de setembro passado (mês em que a crise quebrou os primeiros bancos estrangeiros), pode-se dizer que a taxa de pobreza cresceu durante a crise. Mas isso é contar metade da história.

Graf_pobreza_Ipea

O fato é que a crise afetou negativamente o movimento histórico de redução da pobreza nas metrópoles brasileiras. Mas não o suficiente para reverter essa tendência de mais longo prazo. Se anualizarmos a série de dados, comparando sempre a média dos últimos 12 meses, veremos que ela mantém-se cadente, o que permite uma extrapolação: a queda da pobreza deve continuar, especialmente agora que o pior da crise já passou.

Não é preciso torturar os números nem omitir dados para chegar a essa conclusão. Mas não dá para forçar a barra e dizer que a pobreza caiu durante a crise.

Pobreza e desigualdade

Não se trata de espicaçar o bom trabalho do Ipea, ou procurar pelo em ovo. É que sem deixar clara a trajetória da taxa da pobreza não dá para explicar o que aconteceu com a distribuição da renda. Afinal, se o andar de baixo foi afetado pela crise, como a desigualdade pode ter diminuído nesse período? Porque o andar de cima perdeu mais…

O centro de estudos de pobreza do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, vizinho do Ipea, prepara um estudo sobre as relações entre pobreza e distribuição de renda em períodos de crise. Valerá a pena ler.

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Written by Jose Roberto de Toledo

05/08/2009 às 8:00

Publicado em Jornalismo Investigativo

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2 Respostas

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  1. Obrigado pelo esclarecimento. Li o trabalho e não entendia porque não havia comentário sobre aquela queda no gráfico. Mas fiquei com mais uma dúvida: a Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE não mede somente a renda derivada dos empregados com salário, deixando de fora outros tipos de renda (aluguéis, juros, ações) e a economia informal? Não sei, mas acho que elas são suficientemente significativas para que haja algum comentário no trabalho, não?

    André

    07/08/2009 at 19:55

    • Você tem razão, André. Além da limitação geográfica, a PME só leva em conta a renda do trabalho (formal e informal). Isso não inviabiliza as conclusões do estudo, mas, como vc diz, seria melhor ter explicitado que todas as conclusões se circunscrevem à renda do trabalho.

      zerotoledo

      07/08/2009 at 20:10


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