TOLEDOL, o blog sobre RAC

Reportagem com Auxílio do Computador (RAC) e jornalismo investigativo

Dez perguntas sobre RAC para Lise Olsen, diretora do IRE (EUA)

“O Brasil é um dos países líderes em jornalismo investigativo no mundo”. A frase seria cabotina se dita por um brasileiro. Mas quem a formulou tem experiência e conhecimento sobre o assunto -o que só aumenta a importância da declaração.

LISE OLSEN_IRE_H CHRONICLE

Integrante do conselho diretor do Investigative Reporters and Editors (IRE), a Abraji dos EUA (eia pretensão), Lise Olsen é repórter investigativa do Houston Chronicle, um dos maiores jornais dos EUA. Lise teve um papel fundamental na disseminação das técnicas de Reportagem com Auxílio do Computador (RAC) na América Latina. Esteve à frente do IRE do México entre 1996 e 1998 e deu cursos de RAC em mais de uma dezena de países, inclusive o Brasil, ainda na segunda metade dos anos 90.

Por causa de seu pioneirismo no RAC brasileiro nasceu a ideia de iniciar por Lise esta que, espero, seja a primeira de uma série de entrevistas com jornalistas que são paradigmas do uso do computador como uma ferramenta de apuração e/ou organização e análise de informações.

1 – Como você começou a trabalhar com RAC e por que?

Lise Olsen – Eu logo fiquei excitada com o poder do uso de documentos para expor segredos e corrupção. Em 1994, eu comecei a aprender RAC depois de perceber que o computador nos permitiria analisar milhares ou mesmo milhões de dados muito mais rapidamente do que resgatando um fichário de cada vez de um arquivo físico. Mas, é claro, eu ainda faça as duas coisas (RAC e pesquisa a arquivos de papel).

2 – Desde que você começou, quais foram as principais mudanças ocorridas nas técnicas de RAC?

Lise – A principal mudança foi a explosão da internet. São tantas bases de dados disponíveis na web hoje me dia que  eu fico surpresa que ainda haja algum repórter que não tenha se dado conta de que é necessário saber técnicas de RAC. Também se tornou muito comum para repórteres que fazem investigações usar planilhas eletrônicas. Nos velhos tempos, apenas os repórteres de economia e negócios sabiam lidar com elas. E hoje todo mundo está “blogando”, e montando bases de dados interativas e mapas, tornando nossas investigações mais interativas e acessíveis para o público do que jamais foram.

3 – Como você se mantém atualizada sobre as novas tendências de RAC?

Lise – Eu frequento as conferências organizadas pelos grupos mais avançados como o IRE, o Knight Center for Journalism in the Americas e, quando tenho sorte, da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e do IPyS (Instituto Prensa y Sociedad, do Peru) na América do Sul. E frequentemente peço conselhos a amigos que se especializaram em diferentes aspectos do RAC, como pesquisa de notícias, mapeamento, estatística e programação.

4 – Quais são seus websites favoritos para ajudar em investigações jornalísticas?

Lise – Eu uso e abuso dos “achadores” de pessoas e dos websites de registros públicos on-line. Mas a cada nova reportagem eu frequentemente descubro um novo website ou uma nova base de dados.

5 – Quais são as novas ferramentas do RAC que você mais aprecia?

Lise – Zabasearch e Pipl são ótimos para achar pessoas nos EUA, inclusive quem não tem seus telefones listados. Ainda nos EUA, o PACER, que abriga os documentos da Justiça federal, tem estado por aí há muito tempo mas novos mecanismos de busca estão tornando mais fácil encontrar diferentes tipos de casos, como por exemplo o tráfico humano, além de tendências e relatórios.

6 – Quais livros sobre jornalismo investigativo e/ou RAC que um jornalista não deve deixar de ler?

Lise – Em inglês, os clássicos “Investigative Reporter’s Handbook” (de Brant Houston, Lee Bruzzese e Steve Weinberg), que teve uma nova edição este ano, e “New Precision Journalism”, de Philip Meyer. Em espanhol, o livro de Gerardo Reyes “Periodismo de Investigación” é excelente mas difícil de achar.

7 – Qual a mais impressionante reportagem com auxílio do computador de que você se lembra?

Lise – Eu gosto muito da matéria para web que ganhou um prêmio Pulitzer este ano, e que mede as mentiras dos políticos: http://www.politicfact.com/truth-o-meter/. E adorei como dois repórteres (sem verba) juntaram suas habilidades de TV, web e mapeamento para documentar a epidemia de assassinatos em Tijuana (México): http://www.kpbs.org/static/2008/border_battle/map.html/.

O blog Narconews está fazendo da cobertura da guerra das drogas uma atividade interativa e multicultural ao incitar uma rede de correspondentes e informantes e postando tudo on-line.

Todo ano, jornalistas usando RAC expõe corrupção e escândalos e você nem percebe que o RAC foi usado.

8 – Como as novas tecnologias e meios de comunicação (como o Twitter) estão afetando seu trabalho como jornalista?

Lise – Eu não estou usando Twitter porque não encontrei o tempo necessário, embora eu ache que seja um ótimo meio para desenvolver fontes de informação e mercado para o seu trabalho. Eu monitoro vários blogs regularmente.

9 – Como o jornalismo investigativo pode sobreviver à crise dos meios de comunicação?

Lise – Se nós nos transformarmos em repórteres blogueiros interativos, se formos mais espertos e publicarmos histórias de ponta que todos falam a respeito e se (glup!) aceitarmos redução salarial ou encontrarmos empregadores que ainda estejam dispostos a pagar um salário decente.

10 – Qual sua opinião sobre o jornalismo investigativo e o uso do RAC no Brasil?

Lise – O Brasil é um dos países líderes em jornalismo investigativo no mundo, embora ainda careça de uma legislação de acesso às informações públicas, o que torna a vida dos repórteres mais difícil. Eu sempre me espanto com a quantidade de histórias que vejo publicadas ou transmitidas pela TV todos os anos. A Abraji fez um grande trabalho promovendo tanto o jornalismo investigativo quanto o RAC e ajudando as pessoas a obter treinamento e informações por todo o Brasil.

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Written by Jose Roberto de Toledo

14/08/2009 às 4:45

3 Respostas

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  1. Ótima entrevista. Bom saber que o jornalismo investigativo no Brasil está bem cotado. Chega a ser um heroísmo. Com tantas dificuldades na formação e no acesso aos dados. Continuemos assim.

    Janis Loureiro

    17/08/2009 at 15:51

  2. Boa, Toledo! A entrevista toda é bacana, com muitas dicas! Mas sinceramente: será mesmo o Brasil um dos líderes em jornalismo investigativo no mundo? Por quê? A Lise tem dados? Desconfio que não seja, não. Precisamos checar… Apuração! abçs

    Eblak

    14/08/2009 at 17:19

    • Obrigado, Eblak.
      Concordo que é necessário apurar mais. O que tenho de amostra de comparação com o jornalismo latino-americano são os vencedores dos prêmios como o do IPyS, nos quais o Brasil tem se saído muito bem. É o país com mais premiados.

      zerotoledo

      14/08/2009 at 18:25


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