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Reportagem com Auxílio do Computador (RAC) e jornalismo investigativo

Pesquisa telefônica no Brasil não ouve pobres

A pesquisa Datafolha sobre eleição presidencial a ser divulgada neste final de semana vai aclarar as chances reais de Marina Silva (PV ou PT?) na sucessão de Lula. Nada como trazer um pouco de racionalidade científica para um debate tão repleto de achismos. A pesquisa servirá ainda para tirar à prova levantamento telefônico feito pelo Ipespe de Antonio Lavareda por encomenda para o PV. A enquete indica a ex-ministra do Meio Ambiente oito pontos percentuais à frente da candidata do governo, Dilma Rousseff.

Comparar é importante porque pesquisa telefônica no Brasil não consegue, ao que se sabe, captar a opinião de uma parcela que decidiu as duas últimas eleições presidenciais: os pobres. Porque as pessoas das classes D e E não têm telefone fixo em casa e não são ouvidas pelos pesquisadores. “Pesquisa eleitoral que represente todo o eleitorado brasileiro só dá para fazer pessoalmente”, afirma o diretor do Datafolha, Mauro Paulino.

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Lavareda parece não concordar. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo (13 de agosto), o consultor do PV defendeu seus métodos e tentou torpedear um dos meios tradicionais de coleta, a entrevista domiciliar: “Nas pesquisas em domicílios, muitos moradores de apartamento ficam de fora porque o zelador não deixa entrar”. A matéria não trás comentários de Lavareda sobre a pesquisa pessoal em ponto de fluxo, técnica historicamente empregada usada pelo Datafolha e incorporada parcialmente pelo Ibope para contornar dificuldade de acesso dos pesquisadores a moradores de áreas controladas pelo narcotráfico e condomínios de luxo, por exemplo.

Em defesa da tese de Lavareda de que pelo telefone é melhor poderia-se argumentar que muitas pessoas da classe D e algumas da classe E têm aparelho celular. Mas esse argumento esbarra na falta de uma listagem nacional de assinantes de celular pós e pré pagos que poderia ser usada para montar a amostra da pesquisa de modo a representar corretamente todas as camadas do eleitorado. Mesmo que se faça uma listagem dessas, seria necessário um permanente esforço hercúleo para mantê-la atualizada, porque a troca de números é grande na base de usuários de celular devido à inadimplência.

“Pesquisa pelo celular, só se for um painel”, diz Paulino. Isso significa montar uma base permanente de eleitores a serem consultados com regularidade pelo instituto. Mas esse é um método muito mais caro do que as pesquisas que usam entrevistas pessoais e não parece ter sido o caso da pesquisa de encomenda para o PV.

Se não é possível captar a opinião dos eleitores das classes D e E pelo telefone na proporção necessária, o que se pode fazer é tentar “corrigir” estatisticamente a mostra usada na entrevista, dando peso maior às respostas dos poucos pobres ouvidos. O problema desse método é que ele potencializa muito o erro amostral, pois em uma amostra pequena aumenta o peso das pessoas que destoam da opinião de seus pares. Segundo Lavareda, na pesquisa do PV a margem máxima de erro é de 2,2 pontos percentuais para os totais que levam em conta as duas mil entrevistas feitas (a margem cresce nos cruzamentos, cuja base é menor). Não parece, portanto, ter sido o caso.

Logo, só resta checar se o Ipespe conseguiu desenvolver um método revolucionário e confiável de pesquisa eleitoral pelo telefone no Brasil. Como? Comparando seus resultados com os da pesquisa Datafolha, o instituto que tem registrado os maiores percentuais de acerto nas últimas eleições, junto com o Ibope.

Eis os números a serem comparados com os do Datafolha. Segundo as contas do Ipespe de Lavareda, a senadora Marina bate a ministra Dilma por 24% a 16% no cenário sem Ciro Gomes e com José Serra como candidato tucano. No cenário com Aécio Neves no lugar de Serra (e sem Ciro), Marina estaria em primeiro lugar, com 27%, tecnicamente empatada com o governador mineiro (25%), enquanto Dilma estaria bem atrás, com 19%.

Os resultados são especialmente surpreendentes porque refletem uma opinião emitida em 22 e 23 de julho, bem antes de a especulação sobre a eventual saída de Marina do PT para disputar a sucessão de Lula contra Dilma tomar conta do noticiário. Será que Marina ficou sabendo antes dessa pesquisa? Será que a pesquisa do Ipespe influenciou sua decisão? Em caso positivo, a pesquisa Datafolha poderá reforçar ou colocar em xeque essa decisão.

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Written by Jose Roberto de Toledo

14/08/2009 às 18:13

Uma resposta

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  1. […] foi antecipado em post ontem, pesquisa telefônica no Brasil não é capaz de medir a intenção de todos os eleitores, porque […]


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