TOLEDOL, o blog sobre RAC

Reportagem com Auxílio do Computador (RAC) e jornalismo investigativo

Datasus atualiza dados de mortalidade (e tem notícia)

O Datasus atualizou os dados de mortalidade no seu site e incorporou as estatísticas de 2007. Não vá achar que o dado está velho porque é o mais novo que há se você quiser comparar todos os municípios do Brasil, ou as unidades da Federação. É uma nova e vasta safra de pautas pedindo para ser colhida. Basta entrar em “Informações de Saúde/Estatística Vitais” e escolher o que você quer consultar na base de dados do SIM (Sistema de Informações de Mortalidade).

Para ficar apenas no assunto que rende mais manchetes: os homicídios caíram 3% em um ano, para 47,7 mil em 2007. Antes de manchetar isso, é melhor investigar os dados. Porque a queda das mortes por agressões (é o termo técnico da Classificação Internacional de Doenças para designar os assassinatos) veio acompanhada de um crescimento de 24% das mortes por “eventos cuja intenção é indeterminada”. Em números absolutos, saíram 1,4 mil corpos por um lado e entraram 2,2 mil pelo outro. Mero acaso?

Picture 35

Um bom epidemiologista explicaria que dentro do item “eventos cuja intenção é indeterminada” se escondem muitos homicídios. Imagine a seguinte situação: o cadáver foi encontrado com seis tiros na cabeça, mas quem assinou o atestado de óbito não registrou “agressão” na causa de morte, mas “intenção indeterminada”, porque não foi capaz de dizer se foi um assassinato ou um suicídio. A checar, mas aposto que entre 50% e 80% dessas mortes são assassinatos. De novo, um bom epidemiologista pode dizer quanto.

O aumento das mortes violentas por “intenção indeterminada” merece investigação porque foi concentrado em um Estado, o Rio de Janeiro. Das 2,2 mil mortes sem autor identificado que ocorreram a mais em 2007 na comparação com o ano anterior, nada menos do que 1,5 mil vieram do Rio. Pior, isso significou um pulo de 90% nesse tipo de morte entre as vítimas fluminenses. Me parece que tem notícia aí, esperando apenas um repórter para revelar-se.

Não por coincidência, em 2007, pela primeira vez na série histórica, o Rio ultrapassou São Paulo em quantidade de homicídios e se tornou o Estado campeão brasileiro nessa triste estatística. E isso a despeito do misterioso crescimento das suas mortes violentas por intenção indeterminada. O gráfico da evolução do número de assassinatos nos dois Estados conta duas histórias muito diferentes, uma de queda expressiva, e outra de estabilidade.

Picture 34

Apesar dos problemas descritos acima, as estatísticas do SIM/Datasus são as melhores para se tratar de mortalidade em geral, e das mortes violentas em particular. Quem alimenta a base é um amplo sistema descentralizado que envolve médicos, secretarias municipais de saúde, IML, Serviço de Verificação de Óbitos e muitas outras instituições. A qualidade dos dados varia muito regionalmente: é melhor em alguns municípios e pior em outros. Mas, ao menos, a fonte dos dados, por ser da área médica, não tem interesse direto em omitir assassinatos, porque não é seu dever combatê-los. A não ser que alguma autoridade superior dê uma ordem nesse sentido.

O que acabo de relatar acima não é uma matéria, é uma pauta -bem embasada, mas uma pauta. Tudo precisa ser checado. É preciso entrevistar mais os dados (sim, os dados!): fazer outras tabulações, por sexo e idade, por exemplo; calcular taxas de mortalidade (dividindo as mortes por residência pela população dos locais); atualizar o ranking municipal de homicídios (o site Mapa Brasil, organizado pela Abraji, Geolab e Focal, tem o mapa de 2006); calcular médias e correlações no Excel.

E depois fazer o arroz-com-feijão da reportagem: ouvir as secretarias da Segurança e da Saúde, epidemiologistas, policiais, sociólogos, e dar cara à tragédia, mostrando o perfil das vítimas, contar suas história. Mas partindo de um número sólido, a partir do qual se pode confirmar ou não algumas hipóteses. Isso é RAC.

Anúncios

Written by Jose Roberto de Toledo

15/08/2009 às 1:23

3 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. Se eu encontro um sujeito com 6 tiros na cabeça, a primeira hipótese que descarto é o suicídio. Parece fazer sentido, a menos que o sujeito queira encobrir o assassiinato.

    Leonardo Bernardes

    16/08/2009 at 23:36

  2. Toledo, o Datasus é realmente uma mão na roda, mas me preocupa algumas discrepâncias nos seus dados. Como você disse, esses dados são tabulados de acordo com o prontuário médico – que pode ter falhas ou incorreções.

    Se pesquisarmos mortes por dengue no Rio de Janeiro nos últimos anos, os números discordam muito dos fornecidos oficialmente pela secretaria municipal de saúde ( http://www.saude.rj.gov.br/Docs/Acoes/dengue/Dengue%20CLÁSSICA%20E%20HEMORRÁGICA.pdf )

    Temos (Datasus / Secretaria Estadual de Saúde):

    2002 – 43 / 91

    2003 – 2 / Nenhum

    2004 – Não tem / Nenhum

    2005 – 3 / 3

    2006 – 1 / 12

    2007 – 24 / 37 (incluindo Dengue com complicações)

    Acho que essa diferença ocorre pq, quando estamos em epidemia de dengue, muitos casos que não são registrados como dengue no prontuário médico são considerados suspeitos e, após averiguação, constata-se que era dengue.

    Logo, acho que, em caso de epidemias, reconstruir a série histórica da doença é sempre mais correto diretamente com os órgãos governamentais – que, apesar de serem partes interessadas no caso, tem mais condições de apurar dados sobre a doença do que o datasus.

    Abraços.

    Rennan Setti

    16/08/2009 at 4:43

    • Toda base de dados tem problemas, sem exceção, das bases de financiamento de campanha e bens dos candidatos do TSE, aos registros de emprego formal da RAIS/Caged, porque quem preenche as fichas são pessoas, sempre sujeitas a erros involuntários, à sua incompetência ou mal-intencionadas. A questão é saber se a quantidade e qualidade desses problemas são importantes a ponto de comprometer a essência da informação. Não creio que seja o caso de nenhuma dessas bases, nem do SIM/Datasus. A unidade básica da informação do SIM/Datasus é o atestado de óbito, geralmente assinado por um médico. Comparado a um boletim de ocorrência preenchido por um escrivão de polícia, bem, prefiro o médico. Há problemas de preenchimento: ignorância, preguiça, má vontade. Mas há também programas de aprimoramento dessas informações, como o PRO-AIM de São Paulo, que têm surtido efeito e melhorado a qualidade das informações. Mas, você tem razão, sempre precisamos desconfiar dos dados, e tentar checar sua consistência, confrontando-os ao longo do tempo, comparando com outras unidades geográficas, procurando pontos fora da curva, calculando médias, tomando cuidado com números muito pequenos etc.
      Em suma, o ótimo é inimigo do bom; e, no caso, o bom é inimigo do regular. Mas melhor uma base como essa do que nenhuma base, ou a base policial.

      zerotoledo

      16/08/2009 at 12:27


Os comentários estão desativados.

%d blogueiros gostam disto: