TOLEDOL, o blog sobre RAC

Reportagem com Auxílio do Computador (RAC) e jornalismo investigativo

Comparado a que? Eis a questão

A matemática é uma ciência exata, mas interpretar números é o reino do relativo. Um mesmo valor pode ser grande ou pequeno dependendo da comparação. Saber comparar, portanto, é o grande desafio para jornalistas quando escrevem (ou falam) sobre qualquer assunto que envolva estatísticas.

“O patrimônio do deputado Sinfrônio dobrou de valor em quatro anos de mandato”. É muito ou pouco? Depende. E, pior, depende de vários fatores: do patamar de onde o deputado partiu, se o ritmo de crescimento dos seus bens desacelerou ou se intensificou nos últimos tempos, e de como ele se saiu em relação a seus pares. Se, na média, o patrimônio dos outros parlamentares quadruplicou, então Sinfrônio deve estar na oposição.

Mas se Sinfrônio tinha um Fusca 68 e morava de aluguel antes da eleição, e agora detém um quarto-e-sala e anda de Honda Civic 99, é provável que seu patrimônio tenha dado um salto em termos proporcionais (deduplicado, dependendo da quilometragem do fusquinha). Em valores absolutos, entretanto, ele é tão emergente quanto um eleitor da classe C.

Já o senador Argentário viu seu patrimônio crescer “apenas” 40% ao longo de oito anos de mandato, de R$ 100 milhões para R$ 140 milhões. Classificando-se pela coluna do crescimento relativo do patrimônio, ele se equivaleria ao baixo clero do Congresso. Já pela coluna do crescimento absoluto, Argentário frequentaria o sínodo dos cardeais bigodudos.

Mais complicada de se analisar é a situação do deputado Retilíneo. Seu patrimônio (que não é uma fortuna mas é maior do que o seu, o meu e o nosso) cresceu na mesma média dos seus colegas de partido ao longo dos últimos quatro anos: 200%. Porém, antes de virar-casaca e se transferir da oposição para uma sigla da base aliada, no mandato anterior Retilíneo tinha empobrecido alguns milhares de reais. A notícia, portanto, é a mudança de vetor, de desaceleração para o espetáculo do crescimento.

Os exemplos acima, por mais estúpidos que pareçam (deputado empobrecendo?!), mostram que não há uma regra única para se comparar e, portanto, para se analisar os números. Tudo depende de com que se compara.

Felizmente, alguém já pensou nisso antes e inventou um negócio chamado estatística descritiva. São algumas fórmulas básicas que o jornalista pode usar quando tem que mastigar uma tabela cheia de cifras:

  1. calcule a média (soma dos valores dividida pelo número de fatores)
  2. calcule a mediana (ponto médio de um intervalo de dados, ex: num conjunto que vai de 1 a 5, é 3; se fosse de 1 a 6, seria 3,5)
  3. compare média e mediana (quanto mais distantes uma da outra, mais desigual é a amostra: se a média for muito maior, é porque tem alguém puxando ela para cima e vice-versa)
  4. identifique o valor máximo
  5. identifique o valor mínimo
  6. subtraia o mínimo do máximo para calcular a amplitude da mostra
  7. calcule a variação bruta dos valores no tempo, subtraindo o mais velho do mais novo
  8. calcule a variação proporcional, dividindo a variação bruta pelo valor mais novo
  9. procure padrões de comportamento nos números
  10. identifique os pontos fora da curva, aquilo que foge ao padrão, ou seja, a notícia

Cálculos feitos, o jornalista terá parâmetros para comparar um valor específico com os demais e saber se aquilo é muito ou é pouco. Claro que tudo isso fica muito mais fácil usando uma planilha de cálculo como Excel ou Google Spreadsheet.

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Written by Jose Roberto de Toledo

27/08/2009 às 2:33

4 Respostas

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  1. Oi!
    Qué casualidad, justo estoy estudiando “data analysis” porque tengo que dar el GRE y tratando de aplicar exactamente las mismas fórmulas que describes (sin la ayuda de excel, por cierto). A mí también me gustaría ver la argumentación aplicada en un reportaje, así es que quedo a la espera de que vuelvas sobre el tema.
    Saludos desde Chile.

    Francisca

    28/08/2009 at 0:44

    • Hola Francisca,

      Agora minha dívida é também em pesos chilenos. Pagarei.
      Vida longa a CIPER!

      Hasta la vista

      zerotoledo

      28/08/2009 at 11:56

  2. Oi Toledo,

    Muito interessante, pois vejo notícias em que fica um pouco nebulosa essa comparação. Mas, ali, na parte das contas, poderia dar um exemplo com números? Ou uma matéria em que essa conta foi usada?

    Espero não estar abusando da sua boa vontade. É que cada post aqui, pra mim, é como uma aula de verdade.

    Obrigada.

    Vanessa

    27/08/2009 at 21:42

    • Oi Vanessa,
      Não tenho como te atender agora, mas prometo duas coisas:
      1) voltar ao tema, de maneira mais didática, em notas futuras;
      2) avisar aqui no Blog quando abrirem as inscrições para o próximo curso online de RAC que acontecerá a partir de setembro, promovido pelo Knight Center e ministrado por mim.

      zerotoledo

      27/08/2009 at 21:59


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