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Reportagem com Auxílio do Computador (RAC) e jornalismo investigativo

10 anos depois, de volta ao impresso (mas com pé na web)

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Comecei hoje a contribuir com o Estadão. Dez anos após deixar a Folha, volto ao jornalismo impresso e diário. Mas mantenho um pé na web, para onde migrei, junto com a torcida do Corinthians, em 2000. A contribuição para o Estadão é temática: escreverei sobre pesquisas e as eleições de 2010, tanto para o jornal de papel quanto para sua versão on-line. O primeiro texto “impresso” é este aqui. Tomando a 99ª pesquisa CNT/Sensus como gancho, analiso o comportamento do eleitorado e as chances dos candidatos.

Durante o período de colaboração para o Estadão, procurarei manter este blog atualizado na medida da minha disponibilidade de tempo. Pretendo não misturar os assuntos. Lá o conteúdo, e aqui, quando for pertinente, o “making of”.

Assim, eis algumas dicas sobre análise de pesquisa eleitoral:

1) Não se perca no mar de números, tente enxergar as grandes tendências. Elas são mais importantes do que as pequenas oscilações.

2) Use sempre a margem de erro, não apenas quando ela lhe convém. É fato: quando somamos a margem de erro de uma pesquisa com a da anterior, raramente há uma oscilação que possa ser considerada estatisticamente significativa. Se a margem for de dois pontos, ela precisa superar quatro pontos para poder se falar em alta ou queda. A margem de erro é proporcional ao tamanho da amostra (mas o tamanho da amostra não é proporcional ao tamanho do universo pesquisado).

3) A terceira dica é para ajudar a cumprir a segunda. Como é difícil haver notícia de uma pesquisa para outra, é mais proveitoso buscar tendências com pelo menos três pontos com a mesma direção na curva. Por exemplo: o candidato A oscila de 10% para 12% e em seguida para 15%, em três pesquisas consecutivas. Apesar de as variações de uma pesquisa para outra terem ocorrido dentro da margem de erro, pode-se falar em uma tendência de crescimento, porque a soma das variações supera a soma da margem de erro (de dois pontos, no caso). Isso só vale se não houver nenhuma variação em sentido oposto entre as pesquisas analisadas.

4) Sempre preste atenção na pesquisa espontânea, principalmente nas fases iniciais da campanha eleitoral. Ela tende a ser mais significativa do que a estimulada quando os percentuais de não sabe/não respondeu/branco/nulo somados superam 50%. É sinal de que o eleitor ainda não está preocupado com o assunto que lhe é proposto pela pesquisa. Nesses casos, as intenções de voto sinalizam mais um recall (memória) do que um propósito firme de sufragar aquele candidato.

5) Compare, tudo e todos: intenção de voto com avaliação do governante, pesquisas diferentes, eleições passadas e presentes, eleitores ricos e pobres, eleitoras e eleitores, jovens e velhos. Procure padrões de comportamento. Eles são mais importantes que as exceções.

6) Sempre leia o questionário original da pesquisa e confira a sequência das perguntas. A ordem das questões altera o produto: após responder a uma questão que obriga-o a emitir um juízo de valor sobre um dos candidatos o eleitor estará propício a manter esse juízo na hora de indicar sua intenção de voto. Se falou mal, dificilmente admitirá a possibilidade de votar nele.

7) Divulgue a metodologia da pesquisa: número de entrevistas, universo a que diz respeito a amostra, margem de erro, universo de confiança, data de campo da pesquisa, quem contratou a pesquisa e tudo o mais que possa influenciar os resultados.

8 ) Não compare diretamente resultados de cenários eleitorais diferentes. Se na pesquisa anterior havia mais candidatos ou eles não eram exatamente os mesmos da pesquisa mais recente, não se pode dizer que um candidato tenha caído ou subido de uma pesquisa para outra. As intenções de voto são sempre relativas, nunca absolutas. Elas dependem de quem está no páreo. Se os cavalos mudam, mudam também os resultados.

9) Lembre-se: enquetes feitas pela internet ou pesquisas feitas pelo telefone no Brasil não representam o total do eleitorado, porque nem todos os eleitores têm acesso a esses meios de comunicação. Além disso, não há controle rígido sobre a amostra de respondentes, e os mais interessados tendem a participar mais, distorcendo o resultado. Amostra boa é uma amostra que represente corretamente o universo pesquisado. Uma amostra estatisticamente controlada com duas mil entrevistas em todo o Brasil vale mais do que uma amostra com 100 mil respostas feita pela internet.

10) Mesmo as pesquisas científicas, baseadas em critérios estatísticos rígidos, estão sujeitas a um certo grau de incerteza e imprecisão. Uma pesquisa com margem de erro máxima de 3 pontos percentuais e intervalo de confiança de 95% indica que em 95 de cada 100 pesquisas feitas, a intenção de voto de um candidato que tem metade do eleitorado ficará entre 47% e 53%. Nas outras cinco, o erro será maior do que esse. Assim sendo, pequenas oscilações só devem ser vistas como sinal de mudança do eleitorado se forem constantes. Tampouco me parece relevante usar casa decimal depois da vírgula para tratar de intenção de voto. No texto do Estadão, arredondei todos os valores divulgados pelo Sensus.

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Written by Jose Roberto de Toledo

24/11/2009 às 0:15

3 Respostas

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  1. Boa sorte e parabéns pelos dois artigos publicados.
    Agora sim vamos poder ler as estatísticas publicadas com interpretações responsáveis.
    Abraço, luciana.

    Luciana

    25/11/2009 at 14:13

  2. boa sorte.

    Rodrigo Contrera

    24/11/2009 at 13:48

  3. […] This post was mentioned on Twitter by Jose Roberto Toledo, Artur Araujo. Artur Araujo said: (Via Blog do Toledo) 10 anos depois, de volta ao impresso (mas com pé na web): Comecei hoje.. http://bit.ly/08rPlpG […]


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