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Perguntar, confirmar e avisar: os limites com a fonte

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O jornalista Maurício Stycer levantou uma interessante questão em seu blog sobre até onde o jornalista deve ir quando o entrevistado fala uma bobagem. Devemos repetir a pergunta? Devemos confirmar o que ouvimos? Ou devemos avisar que ele disse uma besteira e que vamos publicá-la?

Difícil imaginar uma regra que se aplique automaticamente a todas as situações. Stycer elogia no seu blog o repórter Thiago Salata, do “Lance!”, que avisou o presidente do Palmeiras que iria publicar tudo o que ele estava dizendo (Belluzzo acusara um árbitro de “estar na gaveta”). Concordo com o elogio, mas nem sempre o aviso é possível. Recordo uma situação em que o aviso teria sido prejudicial à reportagem:

Eu cobria a Fiesp para a Folha de S.Paulo. O presidente era Mario Amato. Certo fim de tarde, ele conversava com meia-dúzia de jornalistas no restaurante da entidade quando foi interrompido por uma chamada telefônica. Ao voltar à roda, desculpou-se dizendo que precisou atender porque era a ministra do Trabalho, Dorothea Werneck. Como havia repórteres do sexo feminino na rodinha, Amato gracejou: “Ela é muito inteligente, apesar de ser mulher”.

Fiquei quieto. Voltei à redação, escrevi a matéria com a “boutade” do presidente da Fiesp e a editora de Economia Eleonora de Lucena levou a expressão ao título da matéria. Foi uma crise, mas, apesar de os outros jornais não terem publicado a frase, Amato não teve como desmentir. A história chegou ao ponto de Dorothea, anos depois, escrever um livro cujo título era… “Apesar de ser mulher”.

Se, na hora da entrevista, eu tivesse avisado Amato que ele tinha dito uma bobagem, ele teria se desdito automaticamente e os outros repórteres talvez tivessem publicado a história também.

Mas é um episódio a partir do qual não se pode tirar uma regra. Leia as respostas de outros jornalistas à questão feita por Stycer no Twitter. Elas dão uma ideia de quão distintas podem ser as abordagens nesse caso:

@mauriciostycer Amigos jornalistas, o repórter deve avisar ao entrevistado que ele está falando besteira?

@zerotoledo Boa questão. Eu só avisaria que ia publicar a besteira dita se não tivesse gravado e temesse q o entrevistado voltasse atrás

@profwillians Sim, mas se todo jornalista fizer isso, vai ter muita gente que nunca mais vai dar entrevista, pois só falam asneiras.

@MSavarese Creio que há outras maneiras de dizer isso. Algo como: “O senhor não teme a repercussão disso que está dizendo agora?”

@porcopedia Por que vocês, vestais, não falam a mesma coisa quando os jornali$tas é que falam besteira ?

@Cardoso pq você quer banir os ex-BBB de dar entrevista?

@eduloureiro Pela resposta de Belluzzo ao @JucaKfouri , não foi bem uma besteira // @mauriciostycer Eu deveria ter colocado “besteira” entre aspas.

@fchiorino Repórter avisa que está gravando. Aí o resto é por conta e risco do entrevistado

@estadodecirco Belluzzo, pessoa (supostamente) preparada, cinco horas após o ocorrido, precisa de alerta? Não acho.

@eduloureiro Em tempo: protocolarmente, acho que o único aviso necessário é: estamos gravando.

@Jugranjeia Futebol é tão podre quanto a política. Não existem pessoas ingênuas nesses meios. Mas acho q @ThiagoSalata foi profissional.

Written by Jose Roberto de Toledo

09/11/2009 at 10:34

Publicado em Jornalismo Investigativo

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